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terça-feira, 2 de agosto de 2011

QUEM NÃO DEVE NÃO TEME ( Desabafos 1 )

Hoje dei por mim a pensar, Bolas... já levo 43 anos de actividade como músico, e nestes anos todos conseguidos com a graça de Deus, nunca me lembro de ter passado um Reveillon em casa ou um simples Carnaval. O que quer dizer, que já são  milhares de horas que tenho dedicado ao showbusiness, feitas initerruptamente. Filosoficamente falando,  mudam os tempos, mudam-se as vontades. Quando em Setembro de 1999, cheguei à conclusão que não valia a pena continuar a "sustentar " o projecto musical que liderava desde 1970, de seu nome Holiday, em virtude da manifesta falta de mercado para ele, resolvi dar umas "voltas" por aí, e ver in-loco o que se fazia na área da música de dança. Levei pouco tempo para perceber, que  a tendência era contratar um organista, ou acordeonista a 1/3 do preço que eu cobrava no Holiday. 
Ou seja, as bandas com 5,ou mais elementos, estavam a ser largamente ultrapassadas, porque as entidades contratantes, perceberam que obtinham um maior lucro, com um menor investimento. Então pensei ! Ai é assim? Então contem comigo! Adoptei logo o velho ditado que diz, não podes com eles? junta-te a eles! Começo por investir num wavestation da Technics, o KN-3000 e depois de uns ensaios, comecei a fazer uns bares. Na altura, era só piano e uma vocalista, mas como queria tentar algo diferente do "circuito" de bares, resolvi alongar os horizontes e contactei mais duas jovens. A minha ideia era juntar a minha experiência de vida, ao talento que eu logo percebi que  tinha à minha disposição. Jovens sim, mas capazes de abraçar vários estilos musicais. Ainda hoje acho que  foi a melhor ideia que tive. Tinha um projecto em mente, tinha experiencia, tinha vontade de mostrar que muitas vezes mais vale "solo" que mal acompanhado, e tinha pessoas, que por motivos particulares, eu confiava que não iriam fraquejar na hora da verdade. Optei por um nome de "guerra"para o projecto, que basta uma sigla para ser pronunciado em qualquer parte do Mundo. Cª Ldª.

Na altura, era o único músico que usava um instrumento, para além da voz. Só que o uso de Paterns do teclado, com os seus acompanhamentos de origem, não tardou a enfastiar-me. São muito repetitivos, e se por um lado facilita, por outro também me limitava. Como o teclado contém um sequencer de 16 pistas, comecei a dar largas à minha imaginação e a criar as músicas que queria tocar mais tarde,  optando por um   Step By Step. Ou seja, todas as músicas,  eram feitas a partir da "estaca zero".
Exemplifico: Nós escolhíamos uma determinada música para o repertório, eu decorava as nuances, tais como, a parte do solo, contracantos, os breaks da bateria, o tipo de instrumentos que a música  original continha, e ia escolhendo um a um os sons que iria usar. Normalmente, começo pela bateria, depois, a parte de piano, segue-se o  baixo, e pronto. A base está feita! Eu  "deliro" com as Big Band, adoro sentir o cheio de uma orquestra ligeira, mas como não posso ter uma,  tento criar virtualmente a "minha" orquestra. E em todas as músicas, para além dos sons de base , eu ia fazendo arranjos com outros  instrumentos, tipo flautas, oboés, Sax, Trompete, Tímbalos,  percussão livre etc... O problema é que o sintetizador, só dispõe de um  sequencer, de 16 pistas com uma polifonia a 64 vozes. Nessas alturas, tinha de  fazer cedencias, porque eu carregava as músicas com tanta orquestração:) que quando ultrapassava a polifonia dele, haviam notas que  não saíam.
Para não perder o trabalho de tantas horas,  guardava-as em disquete num formato da Technics. (isto quando as disquetes não se avariavam e eu tinha de começar tudo de novo). Curiosamente, dei por mim a aprender todos os dias  um pouco mais. Agora era só eu, e estava por minha conta. Imaginem uma música que tem 4 minutos e tem um solo aos 3,30 minutos. Eu ligava o start, tinha de esperar que a música chegasse ao ponto, para depois colocar o solo. Quantas vezes uma pequena fífia ocasional, me obrigava a fazer tudo de novo. Eu sei que podia fazer de outra maneira, mas repetia vezes sem conta até ficar como eu queria. Era um Mundo novo, um Mundo onde  não estava "subjugado" à disposição dos outros elementos da banda, para mim, era a liberdade total.  Para o bem, ou para o mal, ali estava eu depois de quase 30 anos a carregar o peso de um projecto que marcou várias gerações, para começar tudo de novo. Depois da música feita, havia uma nova etapa, ensaiarmos as partes vocais, porque essas não se guardam em disquetes.

Cada diskete levava em média no formato Technics,  5 ou 6 músicas, o que quer dizer que em pouco tempo eu tive de gerir perto de 100 disquetes. Mais tarde comecei a salvá-las no formato Midi, só que dei por mim a ver o negócio dos midis a aumentar, a serem bastante utilizados, com empresas a especializarem-se na área da produção. Sobre os midis, ainda quero acrescentar sem demagogias, que aprendi muito, porque que eu isolava as partes que me interessavam, e acabava por aprender sempre um pouco mais, a maneira de executar, a dinâmica, o "respirar" de cada instrumento.  Adoro aprender e não tenho, qualquer pudor, em o assumir, seja com quem for, desde que eu sinta que me pode ensinar, eu estou lá. Ás vezes, até chego a ser "cromo" com tanta pergunta. Os Midis, contráriamente ao que muita gente pensa, foram criados para ajudar, se depois fazem mau uso deles, o problema é de cada um. Só que  eu,  apesar de usar midis personalizados,  criados de raíz por mim, comecei a "apanhar" por tabela. Foi quando optei por usar um método diferente e construir uma  base instrumental que ainda hoje uso nas nossas performances mais elaboradas. Eu acho que não dá para confundir com midis, porque os midis, não tem nunca aquela sonoridade. As guitarras que se ouvem, por exemplo numa ou outra música, sou eu que as coloco, e músico que tenha orelha, percebe bem o que é um som sintetizado e um som real. Mas como o produto final é bom, vamos lá no bota abaixo.

Agora dirá você! Ah ah! Base musical.... né?
E eu... Pois!
E qual é o problema?

Todos os meus colegas que tocam  sozinhos, e usam Workstations da Korg, Rolland, Ketron etc... também tem a ajuda  ou não? Ora repare. Basta escolher um ritmo, meter um acompanhamento automático inteligente, fazer o acorde com mão esquerda e voilá, está ali a orquestra toda e sem falhas.

É, ou não é?
Pois claro que é!
Aliás nem é preciso fazer os acordes, aqueles teclados possibilitam a utilização de 2 dedos e está o acorde feito.

Então qual é a diferença, em relação ao método de trabalho que utilizamos?
A diferença,  está no apoio instrumental, que hoje em dia tenho produzido pelas minhas colegas. Agora,  já posso elaborar ainda  mais, as músicas que tocamos. Somos 4 elementos, mas soa como se fosse uma grande orquestra e porquê? Porque eu me dou ao trabalho de criar, instrumento, a instrumento e colocá-los estrategicamente em locais específicos. Depois quando o som é reproduzido, ouve-se um cheio que não se consegue com o acompanhamento inteligente dos teclados, porque eles já estão programados. Simples não é? Só que a esmola é muita, e logo o pobre desconfia. Então vem logo a sapiência do invejoso  dizer: "eles não estão a tocar", mas estamos sim! Podemos estar a dobrar o que já está feito, mas toda a gente toca e canta em tempo real. É um estilo e uma opcção. Este  método, já usado há muitos anos por crooners e não só. Ainda no outro dia fui a um resturante Brasileiro, e lá estava um músico com o seu violão, a cantar, a tocar e com uma orquestra de base pré-gravada, a "encorpar" o que ele estava a apresentar, e isso retira-lhe algum mérito? E volto a "teimar". Tenho uma base que me ajuda, mas quem a construiu não tem mérito?  Aquelas bases instrumentais, não foram compradas a terceiros, são feitas por mim, tal como fiz muitos instrumentais para artistas e fadistas da nossa praça usarem nos seus espectáculos. Durante muitos anos trabalhei como músico de estúdio a fabricar instrumentais, Não me vou pôr a desfolhar o meu Know-How, porque  não preciso de fama, preciso sim, de me sentir feliz, a fazer o que mais gosto, uns trocos para pagar as despesas, e muita saúde! Quem me conhece sabe bem do que estou a falar. Mas as bases que se ouvem, têm muitas horas de trabalho e dedicação. Claro, actualmente quando toda a gente está a tocar, com teclas, guitarra, baixo, bateria, os instrumentos que até então usava mais , não entram na base. Mas entram outros que eu gosto de ouvir! Mas  ninguém está  a fingir, toda a gente toca em tempo real e em simultâneo com a base que foi feita cá pelo "je"! E acreditem que não é nada fácil.

Gaita eu só tenho duas mãozinhas e lá diz o velho ditado quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado eles vêem! É por isso que eu gosto de esclarecer sempre, o modo de trabalho que usamos nos COMPANHIA LIMITADA. 

Quem ouve um músico sózinho, percebe que ele não toca todos aqueles instrumentos ao mesmo tempo não será? Só que o meu método é diferente, porque  não me submeto aos paterns que os teclados trazem.

Crio as bases a partir do zero, não tem nada a ver com midis, nem  comprados, nem feitos por terceiros. Há quem o faça, mas eu  não quero nem saber, se estão a tocar ou não, da minha vida sei eu. Infelizmente ainda vão aparecendo por aí uns tretas, que ainda andavam na placenta na barriga da mãe, já eu andava na estrada há anos, e tentam de vez em quando, denegrir o meu trabalho. Nunca ninguém me ouviu gabar, que sou um grande músico, deixo isso para o público, considero-me sim, um "tipo" competente, que nunca deixou os seus créditos por mãos alheias. 

Até hoje, ainda não vi que tivessem colocado de origem  nos teclados , ritmos de Kizomba, Funaná, Merengue Africano, Forró, Frevo, Axé, Sertanejo etc... . Então, como é que  aparecem esses ritmos tão exaustivamente utilizados pela maioria, nos teclados?  São ritmos de midis que compraram e colocaram-nos lá. Os meus ritmos, como esses que muito pessoal usa,  são feitos á mão tecla a tecla. às vezes lá se nota uma ou outra imperfeição, mas eu nunca quis ser perfeiro, quero divertir-me, a divertir quem me escuta.

Esta explicação está no nosso site no menu Biografia geral, já há uns anos. Nunca escondi de ninguém, a maneira como trabalho. 
Estou-me a lembrar do grande músico TONY DA COSTA um veterano oriundo do Barreiro, que também usa bases pré-gravadas que acompanha  com a sua guitarra e voz. Os KARGAS, de onde um dia tirei o modelo para mim idem. O Vítor (bocas) faz as suas bases com um Korg Wavestation, e depois toca e bem a sua guitarra, e canta acompanhado do ROGÉRIO  no baixo. Tão depressa aparecem a tocar a Rosa Enxota o Pinto, como de seguida  interpretam Pink Floyd imaculadamente e são só 2 elementos. Não estou a perceber qual é o problema? Conheço bons músicos da minha zona como o  PEDRO JORGE, o NÉLIO PINTO, o NUNO ROPIO, o PAULO JORGE, o QUIM MANUEL, o  IVO ALAN  entre outros, que tocam e cantam, e animam na perfeição as  festas com os seus teclados. Se eu disser que perfilho de todo o repertório que eles usam estava a mentir, mas isso não se discute, são opcções de estilos, e condutas que cada um toma, mas nunca me atrevi a critica-los, antes pelo contrário, sempre que tenho uma oportunidade, vou vê-los para aprender. Se eu olho para um palco, e vejo um musico sozinho a cantar e a ter harmonias de 2ª e 3ª voz por detrás, não vou dizer que ele está a fazer play back, percebo logo que ele usa a ajuda de um Harmonizer por exemplo. É para isso que as tecnologias ao serviço da música existem, para ajudar. Tenho é pena de ver boas bandas com 6 e 8 elementos carregarem uma panoplia de material de som e luzes  de alta qualidade, para depois os ver a tocar O Pai da Criança, O Baile de Verão, ou o Ritmo do amor do Emanuel, só porque o "povão", não quer mais nada a não ser este estilo de música. Mas não é por isso que eu digo que eles são maus músicos. Eu também as toco, mas deixem-me dizer que eu para tocar esse estilo de música, nem preciso de ensaiar, e atenção... não estou a minimizar quem as criou, mas toda a gente sabe que há músicas simples e outras mais complicadas, cada qual no seu estilo. E para aqueles que duvidam, fora do palco, eu estou na disposição, de mostrar gratuitamente o que sei fazer. Digo fora do palco, porque em cima do palco eu pertenço ao público.

Orgulho-me, e  muito de ter "pegado" em 3 jovens, e também literalmente da estaca zero,  conseguido que hoje "elas" se tenham tornado  numa mais valia, que não deixam dúvidas a ninguém. Se me perguntarem se elas são grandes executantes, dos instrumentos que usam para além da voz, eu digo que elas simplesmente, fazem o suficiente para não deixarem os seus créditos por mãos alheias, porque em relação ás vozes nem me dou ao trabalho de comentar. Mas são jovens, tem muito tempo para evoluirem cada vez mais. Ensinei-as a tocar, e ainda aprenderam  comigo, a não se submeterem a esquemas, nem venderem alma ao diabo, para serem alguém neste mundo bonito, mas stressante da música. Mesmo com tanto trabalho,  ainda aproveitaram para terem  terminado um curso Superior. AH POIS É! Pensavam que as "minhas ricas filhas (era bom) como diz a Cinha Jardim" são alguns pés-rapados? Em suma vivem para a música, mas não vivem da música.

Estamos então entendidos de vez?... Espero bem que sim.

Para terminar este desabafo1, deixo aqui umas linhas dedicadas a um "badameco" que nem me digno a pronunciar o seu nome, que em tempos por causa de um negocio que ele achava que estava feito, e eu passava a ser o otario de serviço, ficou tão despeitado, que teve a ousadia de confundir o "cu ", com a feira de Roma e ainda me alcunhou de tocador de Midis. O que faz o desepero das pessoas, coitado!.. Mas eu já lhe perdoei. Ainda assim, como estou numa de desabafo explicativo, quero deixar aqui um recadinho pessoal ( se por um acaso do destino um dia ler este meu desabafos 1

Nem na outra encarnação que possas vir a  viver um dia, chegarás á M***A que eu C*GO, isto como músico claro. E se ainda não te chega, preferia mil vezes,  ser um tocador de midis como tu dizes, do que tocar música a metro, e de xaxa como a que tu tocas. E eu não roubo espaço a ninguém , porque eu sou só músico, não sou como a canção do ZéMalhoa que tu adoptaste (eu vou a todas). Enfim! És mesmo o protópito da mentalidade mesquinha, do Zé Português Tacanho, mas ainda assim desejo-te a melhor sorte do Mundo, porque eu se não tocar,  não preciso de andar a esmolar,  nem a caluniar os colegas,  para ver se consigo trabalho.
Tá dito, Tá feito!.

Carlos Camarão (mentor do projecto musical COMPANHIA LIMITADA )