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quinta-feira, 5 de abril de 2012

QUEM QUER SER PROTAGONISTA ? ( Desabafos 10 )

Hoje, vou dar continuidade à minha saga expulsando mais alguns esqueletos do armário, há muitos anos guardados, para poder viver em paz com a minha consciência. A ideia é fazer-me ouvir sem truques nem omissões, a não ser que a memória me falhe, e ao mesmo tempo, pondo os pontos nos Iiiis na hora H.
Não pretendo ofender nem linchar ninguém, mas a César o que é de César!
Começo por afirmar, que ao longo da minha vida nunca confundi protagonismo com liderança! O protagonista, não precisa de uma formação específica e muitas vezes está associado ao tipo do ser humano básico e idiota, que sofre de um “alarvismo” tal que chega para irritar uma casa de família. Curiosamente, muitas vezes terei dito mais do que precisava ou alguma vez tenha pretendido, acabando por ser o protagonista activo que passa de bestial a besta com uma velocidade impressionante. Tendo sido este, o mote escolhido para o meu desabafos 10. Sinto que ao escrever, encontro paz e resposta para muitas das minhas dúvidas, porque uma coisa é que alguém me considere uma besta-quadrada outra é eu acreditar nissoJ
Na verdade, penso que todos nós temos algum protagonismo no nosso dia-a-dia. Quando somos chamados a dar um passo em frente e as “luzes dos projectores” incidem sobre nós estamos mais que prontos, quer queiramos quer não, para mais um “take” na “longa-metragem” da nossa vida.
Faz parte das regras mais elementares do viver em sociedade. Mas lá que o sejamos por defeito, isso não quer dizer que estejamos preparados para liderar, porque para tal é necessário ter pulso firme, mas também saber ser tolerante.
Quando ingressei no Holiday, em Agosto de 1970, fui tocar com músicos já maduros, eu era o puto, o sangue novo que eles precisavam para se manterem à tona. O que lhes sobrava em experiência careciam em novas ideias. Quis o destino que eu entrasse na altura certa, uma vez que o Holiday já tinha entrado numa fase em que os seus músicos pouco mais tinham e/ou queriam dar.
Eu era um jovem inexperiente, mas percebi que dentro do grupo existiam regras de ouro (outra vez as regras até pareço um ministro das finanças). Mas antes que alguém comece a divagar tipo, mas este senhor sempre foi um não-alinhado como é que ele fala tanto em regras? É simples! Se nos acomodarmos, podemos estar a hipotecar o nosso negócio, a nossa relação e quiçá a nossa vida e lá porque as “coisas” estão más, não vou ter que me afundar com elas. Assim, com 16 anos apenas, eu salto do anonimato para o protagonista do conjunto Holiday e, em pouco tempo, estava a liderar uma equipa que tinha construído o seu nome, à custa de muito trabalho e dedicação. Mas este protagonismo forçado deu-me o traquejo suficiente para me conduzir pelos caminhos sinuosos do “show business” até aos dias de hoje.
Sintetizando!
Eu não quis ser protagonista, nem líder de coisa nenhuma, ainda hoje prefiro ser mandado a ter de mandar, no entanto, gosto é de ser bem-mandado e sou intolerante com o despotismo ou a arrogância.
Muitos anos depois, já habituado á luz dos projectores percebo que este protagonismo me arranjou algumas animosidades crónicas, mas se até Jesus Cristo não conseguiu agradar a toda a gente como é que eu, um simples “Senhor” que não faz mal a ninguém e que acaba por ser vitimado pela santa inquisição, na pessoa de quem me idolatrou quando eu estava a dar, e me despeita quando me nego a pactuar com mentiras e quero fazer valer os meus direitos?
O caricato, é que eu nunca procurei protagonismo fútil e quando dou por mim acabo a liderar, será que isto também é karma?
Ora aqui vos descrevo alguns exemplos.
Vou começar por me reportar aos tempos do “meu” Holiday!
Sem eu pedir e quando dei conta, ninguém dava um passo sem me consultar, já estou a falar do Holiday pós anos 80. Na altura, tínhamos um saxofonista de seu nome Luís Raminhos, infelizmente já desaparecido do nosso convívio, que para além de ser um belíssimo músico era também uma jóia de companheiro, um destes dias vou escrever um anedotário sobre as aventuras de todos os que passaram pelo Holiday, que se irá chamar SANTA PACIÊNCIA J. Mas agora, porque o assunto é muito sério, vou deixar a sátira para o “post” seguinte. 
O Luís Raminhos, um dia queixou-se de dores na coluna, era o princípio de um longo calvário que acabou por vitima-loL. Depois de ter sido submetido a uma operação muito delicada, ficou incapacitado de dar o seu contributo. Como líder, por defeito, do projecto Holiday, tive de pensar numa solução. Na altura, ainda vigorava um regulamento interno no conjunto, que havia sido assinado por todos os elementos e já vinha do tempo do meu pai e colegas, desde a altura dos Mexicanos, posteriormente designado Holiday In Portugal e que, de grosso modo, dizia o seguinte: O Património do conjunto é da propriedade de todos os elementos que assinaram este documento. No entanto, se algum dos elementos abandonar o conjunto sem justa causa perde todos os direitos sobre o mesmo. Na prática era uma regra de Ouro, que impedia os elementos de saírem de cabeça quente e nos mantinha unidos por mais discussões e arrufos que surgissem.
Posso afiançar que esta regra foi a causa da longevidade do Conjunto Holiday, tendo durado, sem exagero, meio século. Esta regra base já existia quando eu entrei e eu adoptei-a nos 30 anos seguintes.
Como podem ler no “Post” anterior quando eu falo em regras que não podem ser quebradas, não o estou a fazer em vão só que, por uma questão de ética e cumplicidade, as mesmas não são divulgadas nem a nível familiar, daí que algumas pessoas possam achar que sou injusto quando, sem mais nem menos, eu dispenso um elemento do grupo como foi o caso das pessoas citadas no Post 9 “VAMOS A CONTAS 13 ANOS DEPOIS”.
As regras que me foram passadas, adaptei-as aos tempos e às pessoas que comigo vão trabalhando e GAITALLL, quando é para entrarem aceitam tudo mas quando começam a falhar, já sou injusto? Enfim, não me quero desviar muito do assunto que trato neste Post só que, no mínimo, isto devia dar que pensar a essas pessoas.
Não me condenem sem me ouvirem! Porque se estiver errado, uma boa conversa tranquila e aberta tem-me resolvido muitas situações delicadas, só que é muito mais interessante às mentes tacanhas e de fraquíssima memória apoiar pela negativa, mordendo a mão de quem os ensinou a ladrar.
Adelante hombreJ
Voltando ao caso do malogrado Luís Raminhos, quando percebi que a situação era grave e incapacitante, tive de puxar para mim a responsabilidade do assunto e desloquei-me à casa do Luís Raminhos acompanhado de um candidato ao seu lugar, cujo nome artístico era Filipe N’jojoJ, desculpem a ironia do nome, mas era a alcunha dele. O Filipe pretendia comprar a parte do Luís para entrar no Holiday, pelo que lá falaram e acertaram as condições entre ambos. O Filipe N’jojo pagar-lhe-ia 100 mil escudos, isto há 28 anos +ou - e ainda ficava com o seu instrumento, que tinha sido usado como fiança quando entrou para o Holiday, a fim de todos ficarem com partes iguais.
Tudo isto foi transparente e feito sem sobressaltos. O Filipe também acordou que lhe pagaria em prestações e, à partida, o assunto ficou devidamente esclarecido e arrumado. 
De quando em vez, perguntava ao N’Jojo como é que estava a dívida, respondendo-me este, que estava a pagar conforme o combinado. A partir daí eu não tinha mais responsabilidade no negócio ficando, de certa forma, de bem com a minha consciência.
Quis o destino que o Luís viesse a falecerL ficando a sua viúva, como é óbvio, com o direito de receber o que ainda faltava pagar, tendo o Filipe essa responsabilidade.
Da última vez que falei com o Filipe sobre ao assunto, ainda ele tocava comigo no Holiday, disse-me que ainda lhe faltavam 15 mil escudos.
Não sei se era mentira ou verdade mas penso que, no mínimo, não tinha o direito de duvidar do N’Jojo, pois tinha-o como uma pessoa séria. Do que eu tinha a certeza é que a dívida não estava totalmente paga, sendo certo que várias vezes aconselhei o Filipe a, pelo menos, dar a cara e se possível pagar tudo o que devia. Pelos vistos não o fezL.
A viúva que me conhecia desde miúdo, em vez de vir falar comigo e contar-me que apesar de eu ter chamado o Filipe à atenção, já que por defeito era o líder do conjunto Holiday e podia tentar forçar a resolução da situação, não o fez e claramente passei a ser o protagonista com o papel do mau da fita, (sim porque há protagonistas bons) tendo sido verbalmente desancado (vá lá) e apodado de vigarista, chulo entre outros mimos.
Pior é que essa senhora resolveu dizer isto tudo à minha própria mãe que até àquela altura tinha sido a sua amiga de longa dataL.
Quando soube disto, logicamente que me apeteceu dar-lhe o troco, mas em memória do meu amigo, e atendendo ao desespero que a levou a dizer o que disse, não o fiz. No entanto, chamei o Filipe N’jojo à responsabilidade e fiz-lhe ver que a incapacidade dele para gerir com transparência a situação, fez com que a senhora se dedicasse a denegrir a minha imagem. E se à minha mãe ela me mimou com tanta violência, eu faço uma pequena ideia, do que ela não disse às outras pessoas.
Mas pelos vistos o N’Jojo nunca cumpriu a sua palavra já que a viúva, entretanto emigrada para o Canadá, quando se deslocava a Portugal e ainda durante algum tempo, continuou a mimar-me com os piores nomes possíveisL.
Onde quer que estejas, agora que eu repus a verdade e em memória do teu marido, quero que saibas que também perdoei as injustiças que cometeste comigo e se, em vez de me condenares, tivesses vindo falar comigo, tinhas poupado muitas pilhas de nervos aos dois.
Graças á internet, há cerca de 2 anos, recebi um e-mail da filha do Luís, hoje uma senhora casada a residir no Canadá, onde me contava que afinal a doença que vitimou o seu querido pai tinha sido um tumorLLL.
Juro que nunca antes tinha sabido dessa parte.
O Luís sempre disse que o problema na coluna dele tinha sido por causa de uma queda que deu no balneário do seu trabalho. Quando o fui ver ao hospital ele tinha sido operado à coluna e se ele o sabia nunca me disse. Peço perdão se fui egoísta e ignorante, mas vigarista e chulo é que eu nunca fui. Lamento, acima de tudo, ter sido o protagonista forçado desta história tão triste. Também não receio a justiça divina porque Deus sabe que estou inocenteL………. e não sou um oportunista da Fé.
Como este caso, para mim o mais grave de todos nos 30 anos em que estive a liderar o Holiday, eu podia enumerar centenas deles, em que podia provar que nunca quis ser protagonista, admito que alguém tem de dar a cara, admito que ao fazê-lo se arranjem ódios de estimação, mas não posso continuar a ser o bode expiatório de quem quer fazer de mim o bombo da festa.
Não sou santo, apesar de ter coroa, mas o meu erro é confiar demais e acima de tudo não ter maldade. Este meu jeito “naïf” tem-me dado grandes dores de cabeça, porque não consigo meter toda a gente no mesmo saco e volto a cometer os mesmos erros.
Liderei o projecto Holiday 30 anos, fui o protagonista forçado na maioria dos casos, todos os que tocaram comigo sabem bem que eu fui um lutador, se fizemos televisão, se fomos internacionais, se fizemos concertos, se gravámos discos, se fomos uma banda de referência para acompanhar grandes artistas da nossa praça, tive de carregar com todos eles às costas, porque sem mim nem um dia se tinham mantido unidos. Não me importo nada, mas mesmo nada, que achem que me estou a gabar, porque a verdade é esta! E se é mentira digam-me porque é que quando deixaram de tocar comigo, nunca mais tocaram com ninguém? Sabem porquê? Porque eu vos trazia ao colo a todos e quando deixei de vos dar de mamar, nunca mais foram músicos, nem de brincar! Eu amo o que faço, sabem porquê? Porque sou honesto! Sabem porquê? Porque sou solidário! Sabem porquê? Porque EU sou BURROJ!!!
Posso afirmar com orgulho que, se o Holiday alguma vez foi um conjunto de referência, foi única e exclusivamente graças a mim. Desculpem lá qualquer coisinha, mas eu fui o BURRO de carga que carreguei um pesado fardo durante 30 anos. Vocês amigos sabem que eu podia ter-vos virado as costas. Se é mentira, perguntem a todos os artistas, que tivemos o prazer de acompanhar, quem era o HOLIDAY?
Mais um episódio caricato para reforçar o que estou a afirmar.
Certa altura da nossa carreira, estávamos a trabalhar no Parque Mayer num programa semanal que se chamava Fim-de-Semana, uma ideia do saudoso locutor da Emissora Nacional Luís Filipe Novaes. De entre as nossas funções de músicos, destacava-se uma delas que consistia em acompanhar artistas da nossa praça, mas tudo em cima do joelho. Foi lá que conheci a Alexandra, o Cid, e tantos outros que já tínhamos acompanhado pontualmente.
Chegávamos todos os sábados, ao Parque Mayer, às 9.30 h e o programa só era às 15.00, no Teatro Maria Vitória. Todos os sábados o Luís Novaes, levava artistas de nomeada para reforçar o concurso para descobrir novos valores que durou 6 meses, mas vamos em frente.
Enquanto eu ficava de castigo mais o baterista da altura, o meu amigo Henrique Lafé (nome artístico), os outros batiam-se alegremente num jogo de matraquilhos, numa das salas de diversão que existiam na altura no Parque Mayer.
Eu ficava ali a tapar o buraco e a cozer a manta para depois distribuir o trabalho por todos ou seja, preparava a papinha toda para depois ficarmos todos bem vistos. Na prática, eu estava a ser protagonista à força, porque sozinho dava a cara por todos. Na altura, eu andava com um furúnculo na nádega esquerda J. Eu que raramente tive borbulhas na juventude, logo me havia de aparecer aquela “porra”, tendo estado na iminência de ter de ser lancetadoL mas não fui deixem lá. Andei assim várias semanas custando-me muito estar sentado já se vê. Entretanto o Luís Novais sempre que o show terminava, vinha dar os parabéns pelo excelente trabalho elaborado pela equipa e eu nunca, em tempo algum, tentei puxar para mim os louros, nunca o fiz até hoje e tudo porque eu não queria ser protagonista. Dava-me ao trabalho de os avisar em particular: Vocês têm de se chegar à frente, porque um destes dias posso não estar à altura dos acontecimentos e vocês não vão estar preparados, dado que nem sequer conseguem ter um método de trabalho. Aqui era o “líder” a tentar responsabilizar a equipa, não os minimizava, simplesmente preocupava-me o facto de que terceiros viessem a descobrir as fraquezas de cada um de nós, não sei se me faço entender, mas aceito dúvidas e respondo a quem as tiver ao ler este Post.
E não é que o tal furúnculo na “nalga”J inchou de uma maneira que num daqueles sábados tive de ficar em casa a fazer tratamento para conseguir rebentar o furúnculo e eles, muito solidários, foram à frente para o teatro e eu seguiria mais tarde. Apesar de não estar nada bem, às 12 horas meti-me no carro e lá fui direito ao Parque Mayer. Quando chego à porta do Teatro Maria Vitória, estava o Luís Novais de mãos na cabeça e só me disse: Oh Carlos Camarão ainda bem que você me aparece, porque aqueles indivíduos não sabem tocar sem si, estou decepcionado.
Engoli em seco e defendi-os logo ali com um desculpe lá oh Luís, mas deve haver aí um equívoco qualquer e ele, Ai há? Então vá ver! Quando entro no palco do Maria Vitória, estavam os meus músicos envergonhados a um canto e 2 artistas mexicanos, bravos com a banda. O Luís, assim que me viu disse logo num espanhol de Campo de Ourique: Este é que é o chefe da banda e agora vai ficar tudo bem. Eu corei, porque não queria, não tinha pedido e muito menos naquela manhã eu queria ser o protagonista a bancar o bom da fita. Os Mexicanos olharam para mim, sorriram e esperaram. Virei-me para a banda e perguntei então pá? Que é que se passa? Vocês nem a porra da Malaguenha conseguiram acompanhar? Bem, usando uma linguagem que só quem trabalha comigo entende. Meia hora depois, lá fomos todos almoçar sem mais sobressaltos.
Ok! Ok! Se calhar alguns leitores poderão pensar, este “tipo” não pára de se armar em salvador da Pátria.
E cá está!
Se pensaram assim, estão errados! Porque me estão a dar um protagonismo que eu nunca, mas nunca quis.
Nesse dia fui o líder mais uma vez e limitei-me a salvar a honra do convento, porque reparem, eu não disse que toquei sozinho pois não? Simplesmente liderei a equipa e levei o barco a bom porto, mas não tenho a menor dúvida de que fui um protagonista para terceiros e sujeito a apreciação dos mesmos.
Naquele dia com o raio do furúnculo a morder-me literalmente a “nalga” e cheio de febre, só queria ter chegado ao teatro, perguntar sobre o que havia para “comer”, sentar-me ao piano e fazer a minha parte. Fiz-me entender?
Agora há um reverso que me veio à memória e é por isso que eu escrevo estes desabafos, porque um dia se a dita me começar a atraiçoar, eu ao ler isto me interrogue: Mas eu fiz isto tudo? Ena pá afinal sempre tive uma vida cheia de peripécias e aventuras sem fim. Sim porque mal por mal antes assim que no hospital.
(Nesta altura começo a ficar aflito, porque queria poder contar tudo, mas  escrevo tal como falo e quando começo nunca mais me caloJ. Desculpem-me! Se acham que o Post é muito grande, vão lendo aos “bocados” tal como se lê um livro, ele não vai desaparecer, nem se estragaJ. São tantas as histórias que afloram à minha mente, em catadupa, que não consigo parar de escreverJ)
Um dia, porque há sempre um dia, eu não quis ser protagonista e lutei por isso, no duro, fiquei a “arder” literalmente com 1.000 contos (5.000 € ) Agora leiam o porquê.
A minha saudosa amiga e grande artista Barreirense Mariete Pessanha, que já referenciei num dos meus anteriores desabafos, certo dia desafiou-me para trabalhar numa revista à Portuguesa com vários artistas de nomeada que estavam ligados ao Teatro de Revista. Ora deixem-me lá recordar alguns nomes para saberem do que falo. Joel Branco, Artur Garcia, Mariete Pessanha, Herlinda D’Almeida, Fernanda Batista, Diana, Mila Ferreira entre outros nomes menos sonantes, mas com igual valor. Os figurinos eram de Carlos Mendonça, o mesmo que tem dado várias vitórias à Marcha de Alfama pela altura dos Santos Populares e a produção era de uma empresa que se chamava Boutique de Estrelas. Depois de muitos ensaios, lá estreámos no Teatro Maria Matos, estivemos em cena 15 dias. Porque a ideia era tornar o show itinerante. A revista chamava-se “E VIVA O VELHO” que veio a revelar-se um sucesso tal que a produtora, da qual escuso mencionar o nome já que identifiquei a empresa, resolveu mudá-la para o Teatro Variedades. Para nós era o regresso ao Parque Mayer. Fizemos o contrato com a empresa e o pagamento dos espectáculos, realizados na Maria Matos, foram feitos atempadamente, cumprindo o combinado.
Uma vez instalados no Teatro Variedades, lá começaram as sessões diárias em dias úteis e 2 sessões ao fim-de-semana e feriados. Estivemos lá, cerca de 5 meses. A minha vida era um corrupio, já que paralelamente à minha profissão de músico, eu acumulava a de funcionário da C. M. Barreiro, o que na prática fazia com que eu trabalhasse das 9 às 17.30h e depois rumasse a Lisboa, só chegando a casa cerca das 2 da manhã, para no outro dia voltar ao mesmo. Era uma experiência nova que nos dava mais visibilidade e estávamos na catedral do teatro de revista, com o nosso nome em letras grandes pintado em Outdoors à entrada do Parque. O cachet para variar não era famoso, mas a minha máxima de semear para colher ainda estava no apogeu. Para além de músico, era o condutor de serviço e lá ia a equipa toda, com a Mariete Pessanha à boleia. O tempo foi passando e eu comecei a aperceber-me de que as despesas estavam a ser maiores que as receitas e quando assim é já se adivinha que mais tarde ou mais cedo a “bomba” rebenta.
Eu não queria que ela rebentasse nas minhas mãos, porque os pagamentos só eram feitos ao final de cada mês, mas no decurso do mês era eu que avançava com o dinheiro do meu bolso para as despesas de transporte e jantares, excepto com a Mariete. A pouco e pouco começo a aperceber-me que o staff de apoio começou a receber ao dia, preocupado fui logo tentar saber porquê? Alguém, me avisou que a produtora estava a queimar os últimos cartuchos e que eles reivindicaram o pagamento ao dia ou abandonavam o Teatro.
Bem, estava na altura de ser o protagonista mau da fita e ir lá também pedir o mesmo acima de tudo porque, a meio do mês já tinha custeado uma boa quantia do meu bolso. Imaginem todos os dias jantar fora e a caminho de Lisboa?
Numa noite, quando vínhamos do teatro a caminho de casa, preocupado eu desabafo e proponho irmos, no dia seguinte, ter com a produtora e dizer-lhe que tinha que nos pagar à semana, porque eu não estava a conseguir custear mais as despesas. Bem! Os meus colegas como não tinham os bolsos a arder, encolheram os ombros com pouco entusiasmo, mas ouvi das boas da Mariete, que desatou a gritar comigo, que eu não tinha nada que fazer isso, que não podia ser desconfiado, que ela nunca tinha ficado a dever-me nada e bla bla blaL.
Eu e a Mariete sempre tivemos um bom relacionamento, mas ela tal como eu era muito temperamental e quando assim é o choque era inevitável, no entanto depois da tempestade vinha sempre a bonança. Éramos colegas e amigos e ambos amávamos o que fazíamos. Mas eu não me atemorizei com os remoques da Mariete e fui mesmo ter com a produtora, que muito a custo lá me disse que a minha revindicação não constava do contrato mas que ia fazer um esforço para me atender.

A Mariete quando soube o que eu tinha feito, chamou-me ao camarim antes da sessão começar e foi assim, +,+h+h+m+m+hg+df+jm+,+h+g+fd+n+b+df+++.+..+.+.+h+f+gdf+J impróprio para consumo. Eu respondi-lhe =)(KJÇlçl’flfkg’º’º’ikuhjhpu’’0«’opjl7ulhL e pronto ela lá me convenceu a ficar calado mais uma semana.

Entretanto a produtora, tal como eu esperava, não cumpriu a promessa e ainda me trouxe um contrato para nós irmos trabalhar para o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, eu assinei o contrato, afinal já estava entalado mesmo e se ela falhasse teria de arranjar músicos à pressa, mas no caminho de volta a casa levei a respectiva desanda da Mariete, tipo toma lá que é para não seres desconfiado e aprenderes a estar calado etc., etc., etc…

Você, por acaso, ainda não percebeu que eu nesta história estou a ser protagonista à força?

Não? A sério? Não está a ver onde?
Admito! Porque só tantos anos depois, graças a este desabafo, é que eu percebo como e porquê, senão vejamos.

Os meus queridos colegas assumiam o papel de advogado do diabo, porque não eram eles que estavam a ficar prejudicados com a história, naquela altura já tinha investido do meu bolso perto de 30 contos (150 €uros), estava na iminência de não receber um cêntimo, mas a julgar pela cara de felicidade que eles aparentavam, afinal eu é que estava nos cornos do touro e tinha, segundo a Mariete mau feitio, porque estava a ser protagonista, já que era o único que me manifestava contra o esquema trapalhão que eu tinha detectado atempadamente.

Nos dias seguintes falei com todos os artistas da Companhia e a conclusão a que cheguei, foi que eles não se importavam de ficarem prejudicados, se isso lhes desse algum protagonismo.

Para explicar melhor esta parte, teria de entrar em pormenores mais íntimos, para defender porque cheguei a esta conclusão, mas tenho muito respeito e carinho por todos, além do mais eu não quero ser mais protagonista nesta história do que já fui.

Resumindo, fiquei com um contrato na mão que, tal como eu pensava, foi a última tentativa da produtora para salvar a época, só que infelizmente também para ela, surgiram pormenores de última hora que não deixaram que a revista fosse para o Porto e foi o fim.

Quanto ao valor a que nós tínhamos direito receber, cerca de 5.000 €, foram para o maneta, mais cerca de 200 € que eu tinha posto do meu bolso. Agora diga-me lá eu fui líder ou protagonista? Então vamos lá esfolar o rabo e ver se eu consigo concluir.

Sabem porque é que eu estou tão amargo, porque o tempo não volta para trás! E apesar das aventuras que vivemos, que dariam para ficar a escrever durante mais de um ano sem parar, eu errei!
Errei porque tive pena!
E para concluir vou, por agora, só falar de mais um caso, este mais recente e vou revelar a minha faceta de funcionário dos TCB…
Dentro desta empresa tenho sido o chamado pau para toda a colher, não entendo porque durante anos, com tantas provas dadas sobre a minha capacidade de criar, organizar e até de liderar, nunca nenhum crânio responsável pela edilidade, me tivesse proposto desempenhar funções por exemplo no pelouro da cultura, eu tenho uma teoria, mas não gosto de meter tudo no mesmo saco.
Nestes últimos anos de trabalho nos TCB, para além da responsabilidade pelo serviço de alugueres da empresa, onde usei a minha experiência de vida para adquirir novos clientes, tinha ainda a função de fazer atendimento público e gerir a parte de multas passadas a espertalhões, que teimam em viajar à borla, entre outras situações em que eu era chamado a dizer presente. Bem é para isso que me pagam. Na minha cabeça já existia a ideia de pedir a reforma antecipada, mesmo vindo cortado eu queria e quero tentar, uma vez na vida, fazer o que mais gosto, estar em palco ou ligado à música. Já tenho 42 anos de casa e pronto, não tenho mais hipóteses de subir na carreira, devido à corja de governantes que puseram o País na miséria.
Auscultei a família, as minhas colegas dos Companhia Limitada e resolvi meter os papéis.
Há poucos meses resolveram retirar-me as funções que tinha porque, segundo as chefias, eu era a pessoa com o “profile” para assegurar a função de tentar vender serviços fora de portas, tipo comercialJ … Bem eu não gostei que me tivessem tirado das funções que até então tinha desempenhado imaculadamente e olhando para as potencialidades que tinha para virar a mesa a nosso (TCB) favor, não me revi nas novas funções. E claro fiz saber a minha posição a quem de direito. Disse ainda que adoro um bom desafio mas quando sinto que, no mínimo, tenho hipóteses de ganhar. Neste caso duvidava de tal e acima de tudo, não queria que as pessoas que achavam que eu era o “tipo” certo, ficassem desiludidas com a minha prestação.
Sabia também que vinha outra vez a ser protagonista, porque na função Pública não há líderes, há tachos e feudos pelo que, ou se é um alinhado ou então fica-se pelo caminho.
Senão, ainda vejamos! Não tinha hipóteses de progredir na carreira, não ia receber mais por isso, estou magoado pela maneira como conduziram o meu assunto e deixei de acreditar. Em suma estou desmotivado. Como não sou como a raposa tipo “estão verdes não prestam”, prefiro sair com a minha dignidade em alta, do que com o rabo entre as pernas. De maneira que estou e muito bem, na situação de Pré-reforma, à espera a todo o momento, de receber a carta que me passe à reserva da F. P.
Estou cansado de ser protagonista de filmes de que não gosto, de romances de cordel e cenas de faca e alguidar.
Afinal, depois de alguns episódios que descrevi e de certas pessoas acharem que me conhecem, eu pergunto?
Quem é que quer ser protagonista? Eu não por favor!
Tá dito? Tá feito!
( Carlos Camarão & Companhia Limitada )