A MINHA PRIMEIRA VEZ Parte II
Começo desde já por agradecer, o feedback que os meus desabafos têm tido. O mais gratificante para mim, é ver no blog, o número de entradas a aumentar significativamente ao mesmo tempo que, vou recebendo e-mails de “pessoas” que comigo “contracenaram” noutras cenas dignas de partilha, as quais me vão sugerindo novos desabafos.
Bom e como o tempo é “coisa” que tenho de gerir com muito cuidado, apesar do prazer que me dá saber que quem lê os meus desabafos se diverte muito, tal facto está-me a tornar num escritoholic inveterado e espevita a minha criatividade.
Por isso Bora Lá!
Se ainda está recordado(a), fiquei naquela parte em que a excursão do pica o olho, tira o dedo do croquete (versão Artur Garcia) se encontrava parada no meio dos Pirenéus por falta de gasóleo, a caminho de Chamberry. Ora como não poderia deixar de ser entre bons portugueses, os 2 motoristas contratados para se revezarem, com o intuito de chegarmos mais depressa, iam tentando encontrar a todo o custo, um bode expiatório para aquela situação insólita.
Sendo certo que o último a conduzir seria o culpado de toda aquela situação, pois deveria ter prestado atenção ao ponteiro do gasóleo, que assinalava correctamente a falta de combustível, portanto ali não havia desculpa.
Às 21h e qualquer coisa e ao perceberem que se estava a preparar um motim , os motoristas resolveram ir investigar por sua conta e risco se havia por ali uma povoação, ou quiçá, uma milagrosa bomba de gasolina, enquanto nós ficámos a gelar, pois sem aquecimento a situação era deveras muito difícil e percebam porquê.
O frio era de lascar e cada vez que alguém precisava de ir à rua aliviar a bexiga, porque duvido que alguém tivesse coragem de meter o rabiosque ao léu, a porta abria-se e o frio entrava à bruta e sem pedir licença de permissão.
Aposto que está a pensar! Aliviar… e só a bexiga?
Então e Carlos, não estava com um problema intestinal por ser glutão e ter mamado 2 sandes de Jamon pata negra e 9 pacotinhos de leite com chocolate? Então o Carlos, não foi o tal que queria aliviar a “tripa” em plena “autopista”, algures em Espanha?
Sim! Mas se também está lembrado(a), eu na altura já estava no processo inverso ou seja, depois das descargas massivas que fui obrigado a fazer, entrei em recessão (efeitos da troika, mal sabia eu) e passei à fase da prisão de ventre. Bem, nesta altura não sei se seja mais explícito ou se ponha flores no meu relato, mas ou conto como foi, sem tabus literários ou então, salto já para o “the end”.
As horas foram passando lentamente, o puto da frente estava com uma espertina levado da breca, pois não dormia nem que eu lhe contasse a história da branca de neve e dos 7 anões, mas como não lhe queria dar mais “cúnfias”, ia mantendo os olhos semicerrados, mas sem o perder de vista.
O “gajinho” punha-se então: “Oh senhor, senhor, o seu amigo já tá melhor?” Mas eu não abria os olhos e ele tornava: “Oh senhor, senhor, o seu amigo é muita peidoso não é? “
E…. gaita, não é que aquele pequenino ser “embirrante”, com todo este argumento me arrancou uma sonora gargalhada, que teve o condão de o pôr aos saltos no banco e a gritar ele peidou-se, ele peidou-se, eu solidário dizia com alguma fleuma, o puto está a falar do Paulo, depois adicionando aquele olhar de cuidado com o papão, dizia-lhe: “deixa-o dormir senão ele volta ao mesmo”.
E fui continuando a compor a história a meu favor, já que o Paulo realmente dormia como uma pedra. Só que o “pestinha” não me dava tréguas, pois enquanto tirava “perdigotos” do nariz e os colava na cabeceira do banco, continuava a pular enquanto gritava novamente, é este, é este e eu muito corado pus-me de pé apontando para o Paulo enquanto dizia para a geral, coitado acontece a qualquer um né? De repente, já toda a gente ria a bandeiras despregadas, muitos acordavam e sem saberem porquê também se riam. Suponho, no entanto, que alguns se riam, não pelo que se estava a passar, mas sim por estarem sob os efeitos da água-tinta que tinham trazido lá da região.
E assim se foram passando as horas. Às 7 da manhã, finalmente começou a raiar o dia, aos poucos começámos a perceber onde nos encontrávamos e caro leitor(a) não sei se vai acreditar, mas estávamos parados a sensivelmente 50 metros de um posto de abastecimento. Mesmo atrás de nós, lá estavam as benditas bombas de gasolina, os motoristas quando saíram foram para Sul e a bomba estava para Norte.
Bem agora sim, já toda a gente ria e batia palmas, também não era para menos, dado que havia um timing a ser cumprido.
Depois de abastecido o autocarro, lá nos pusemos em marcha com o corredor do dito, sempre apinhado pelos meus colegas de viagem, que faziam parte do rancho e que não se inibiam de “arrefinfar” mais uns “bailinhos”, ao som das concertinas, dos ferrinhos e do tambor, tudo isto sob os olhares divertidos da Maria de Lurdes Resende e da Cecília Cardoso (irmã do grande artista, Gabriel Cardoso), que contrastavam com o ar enfadado do Artur Garcia.
E chegamos finalmente a Chamberry, eram 14.30h, estavam 7 graus de temperatura máxima.
Estávamos em França! Eu nem queria acreditar que estava tão longe de casa, sentia-me feliz, mas calculem, com saudades do meu Portugal.
É verdade! Tinha saído do Barreiro há menos de 48 horas e já estava a bater-me uma nostalgia danada, é por isso eu dou muito valor a quem tem de emigrar, mas adiante.
Quando chegámos, fomos directos a um complexo desportivo que tinha um edifício do tamanho do nosso Pavilhão Atlântico, fora do dito, podíamos imaginar facilmente que estávamos numa festa popular, mas cá no nosso cantinho à beira-mar plantado, tudo porque havia inúmeras barraquinhas de comes e bebes que estavam abastecidas da boa pinga, do robusto casqueiro e no ar pairava um cheirinho a bacalhau assado e “sardines”.
Ora isto foi o mote para os dançarinos do rancho montarem ali o estaminé e darem logo o seu show.
Nesta altura, o Luís Novaes, chega ao pé de mim e diz-me: Oh Carlos Camarão, você não quer montar já o material, para o motorista levar o autocarro para o estacionamento, que ainda é longe daqui? Eu olhei-o de soslaio e retorqui: “Heeeeeeeee lá, estou há 2 dias sem me lavar (porcalhote né? Tá bem tá, só queria ver se fosse consigo!), estou cheio de fome, cansado e mesmo assim troco tudo por um banho bem quente e uma cama, No entanto, se é mesmo preciso vamos a isso!” Pelo que, num tom pouco convincente e fazendo das fraquezas forças, chamei as tropas com um vamos lá pessoal.
Entretanto as nossas “vedetas” e familiares não saíram do autocarro, também não estava à espera que eles viessem ajudar, com o pessoal do rancho também não se podia contar, porque eles nesta altura já enfardavam à força toda umas “sardines” e uns coiratos, acompanhado de um lindo carrascão que até tingia o copo, estando-se nos “tintos” para nós. (gostam do trocadilho?)
Logo ali prometi, amanhã se precisarem de som vão ligar a “porra” dos garrafões ao rabo e amplifiquem as concertinas por aí.
Bem escusam de pensar, se eu fui capaz de tal coisa porque, para variar, não fui . Isto foi o cansaço e a “porra” da prisão de ventre que me deixou super mega irritado.
Entretanto ao ver o Luís Novaes meter-se no autocarro com as “vedetas” fui ter com ele e perguntei-lhe: Então e onde é que a gente vai dormir e comer? Ele com aquele sorriso de galã respondeu-me: Nós vamos à frente para prepararmos tudo para vocês, depois mando alguém vir cá buscar-vos e assim sem mais mas nem menos mas, ala que se faz tarde.
Lá fomos nós montar o material para o “day after”, enquanto íamos “mastigando” o cheirinho que vinha da rua, ás “sardines”, aos coiratos e ao nosso amigo “bacalau”.
Já eram 18 horas e o Luís Novaes sem aparecer, nem ninguém nos sabia dizer nada sobre o que fazer a seguir, eu já estava a ficar desesperado. Passado mais algum tempo lá ele chegou, acompanhado de 2 senhores da organização, em duas carripanas do tempo da 2ª guerra mundial e metendo a cabeça de fora gritou, entrem que temos de ir jantar!
Fome nós tínhamos, mas eu precisava mesmo era de um bom banho e a noite prometia que se ia estender, já que o Luís Novaes, tinha trazido de Portugal uma máquina de projectar filmes do tempo da Maria Cachucha, com 3 bobines que continham o filme Português PÁTEO DAS CANTIGAS. A ideia era: a seguir ao jantar iria haver uma sessão de cinema gratuita, para os conterrâneos residentes, numa colectividade lá da vila de Chamberry, mas como eu só queria um banho, puxei então dos galões e disse-lhe: não vou para lado nenhum sem tomar banho e ponto final.
Bem o Luís que ainda não tinha visto o “cu” à carriça comigo, pôs-se em sentido e num “franglês” da pré-história lá deu indicações para os senhores nos levarem ao hotel, que não era mais que uma residencial já muito antiguinha, mas asseada e organizada. Tão organizada, que o dono da mesma tinha colados, logo à entrada, uns recortes dos jornais da região onde aparecia a sua foto, relativos a uns artigos onde declarava que não era homossexual.
Perguntei então ao Luís: Os nossos quartos são onde? No 2º andar respondeu ele. E aí vou eu pela escada acima, enquanto me imaginava sentado na sanita a aliviar as minhas mazelas gástricas e por fim um belo banho quente, um jantar que prometia e uma sessão de cinema era bom demais, para ser verdade, mas a minha fé dizia-me que o meu desejo estava ali, à distância de 20 e poucos degraus.
O meu companheiro de quarto era o Paulo, sempre o foi enquanto tocou comigo no Holiday e andámos a palmilhar Portugal de lés-a-lés e eu piamente implorei-lhe: Paulo deixa-me ir já, já, à casa de banho.
Ele como bom companheiro que foi, cedeu ao meu pedido e triunfante lá entrei no quarto de banho, enquanto ele desfazia as malas.. Sento-me na sanita e para meu desespero o trato intestinal ainda estava a reclamar o raio das sandes do Jamon pata negra e os pacotinhos de leite com chocolate e “chiççççççççççççaaa” não consegui mesmo fazer nada.
Bem, é melhor dispensar agora alguns pormenores menos agradáveis de ler e passar já ao banho.
Dispo-me todinho da silva e olho para aquela banheira, que eu ia encher de água até ao máximo.
Convém não esquecer que a temperatura na rua, era de 6 a 7 graus, coisa pouca já se vê, de maneira que eu precisava de um banho escaldante para arrancar a sujidade de 2 dias de viagem. Abro a torneira da água quente e ???????
NÃO HÁ ÁGUA QUENTE?
Grito desesperado…. Óh Paulo vai lá abaixo, perguntar ao gerente porque carga de água não há a dita quente, na torneira? E apesar de tudo, ainda consegui gracejar com um agora vê lá se ele te assalta
E lá fiquei eu a tremer todo em pelota, naquela enorme e gélida casa de banho.
Passado um bocado o Paulo veio dar-me a notícia, de que o gerente pedia muita desculpa, mas as vedetas, que tinham vindo à frente com a família, haviam gasto a água toda da caldeira e que o Luís Novaes lhe disse, que estavam todos à nossa espera para jantar.
Bem a paciência tem limites, pelo que desatei a largar uns impropérios à altura da minha pouca sorte do momento e num gesto de valentia, misturada com alguma debilidade mental anúncio com um meeeeeeeeeeeeerda eu sou um homem ou sou um rato? Vou tomar banho de água fria e pronto!
O Paulo olha para mim com uma cara de gozo e diz: Carlos não sejas doido, a água deve estar gelada… e eu: Quero lá saber, já tomei banho nas águas de Arrábida e Sesimbra e esta não deve ser pior e atiro um último aviso para a porta: Obrigadinho mas agora vou tomar banho, quem quiser que espere que eu estou farto de trabalhar… e todo nu, venho à porta gritar para as escadas, é de água fria porque há pessoas muito egoístas nesta excursão do picó-olho.
Nisto, olho para o lado e vejo o gerente, o “tal” de olhos muito esbugalhados a olhar para mim assobia e diz uh uh la la
Vai prós tomates pá!
Disse-lhe eu no meu bom Português e fui direito à banheira, meto-me lá dentro não sem antes o Paulo me voltar a dizer: Olha que água está gelada Carlos e eu: Quero lá saber, sou um homem ou sou um rato? E salto para dentro da banheira, abro o chuveiro e ???????????? Oh céus, oh maldição, oh filhos da P…….. que me gastaram a água quente….
Eu sou um rato!
Parecia que me tinham enfiado um foguete pelo rabo acima e num salto acrobático, saio da banheira a toda a pressa. A pressa é inimiga da perfeição, os pés escorregam-me e eu vou direito ao armário que estava na casa de banho, agarro-me à porta, a porta parte-se, cai-me em cima do pé direito, eu com as dores começo a saltar ao pé coxinho e a rodar sobre mim mesmo e zás, dou um pontapé num jarrão de loiça chinesa que cai no chão e se parte em mil pedaços…
Naaaaaaaaaaaaaaão! Agora estou mesmo danado a sério, venho novamente todo nu para a porta a coxear, abro a dita e uso o meu reportório de impropérios, na sua totalidade. Gritei, ameacei, jurei vingança e bati com a porta, umas 10 vezes. Depois fui para a cama amuado e já não queria saber de jantar nenhum… O Paulo assistia a isto tudo, impassível e mal dele se se risse.
Ao fim de uma hora e depois de muitas chamadas para o quarto para me despachar, lá resolvi levantar-me, vesti a mesma roupa e tentei ir jantar, porque há 2 dias que andava a comer sandes e adivinhem do quê?
Quando desço as escadas, já estava tudo no hall de entrada da residencial a gozar o prato, mas ninguém se atreveu a abrir a boca e lá fomos direitos a um restaurante que se chamava Pomme de Terre.
Ali tive uma nova primeira vez, porque nunca tinha comido batata pré-frita congelada.
Cá em Portugal ainda não havia sido comercializada, acho eu.
Era o cartão de visita do restaurante, uma travessa carregada de estaladiças batatas fritas, acompanhada de uma salada de alface e tomate. A carne vinha depois, só que a fome era tanta que, quando chegou a carne, já eu tinha virado uma travessa inteira de batatas. Ainda hoje estou para saber o que se comia primeiro, se eram mesmo as batatas ou se era para esperar pela carne, mas pronto era a minha primeira vez né?
Tenho desculpa ou não por ser virgem?
Ah pois!
Depois de 3 travessas de batatas e carne da boa, lá fomos direitos à colectividade para assistir ao filme o Pátio das Cantigas.
O Luís Novais, levou uma eternidade para colocar a película na máquina e a sala estava cheia, quando conseguiu colocar o filme, foi para junto do ecrã e fez as honras das casa com os agradecimentos e os blá blá blá blá normais, levou os aplausos da praxe pediu silêncio e disse: Agora vão ficar com as imagens do filme O pátio das Cantigas, que fiz questão de pedir à Tobis que me cedesse as bobines, para poder trazer até vós um pouco do nosso Portugal… O vosso silêncio por favor.
E com um ar de pompa e circunstância, num gesto calculado, manda apagar as luzes da sala, leva a mão ao start da máquina, liga-a e PooooooooooooooooF a lâmpada fundiu-se!
O Luís não tinha trazido nenhuma suplente. Ás 22 h naquela vila, duvidava que houvesse uma lâmpada para uma máquina de projectar do tempo da Maria Cachucha.
Mas o Luís Novais era um experiente locutor da Emissora Nacional e com uma calma aparente, puxa de uma cadeira e conta o filme todo em pormenor.
Acabada a sessão/palestra sobre o filme, lá fomos para a residencial, pelo caminho já eu programava a vingança que se deve servir fria e, por falar em fria, a água continuava na mesma.
Lá chegados, fui ter com o gerente e subornei-o com um sorriso e uma piscadela de olho. Pedi-lhe, no meu Francês do Alfredo da Silva, para me arranjar uma toalha e um despertador, ele percebeu logo à primeira, quando me passou a toalha faz me uma festinha na mão e disse pardon mon chéri eu sorri e pus-me na alheta, antes que, sei lá, afinal estava tudo a ser a minha primeira vez, fui logo andando para o quarto e deixei lá o Paulo para resolver o assunto, ele sim falava melhor Francês que eu.
Deitei-me desconfortável, 3 dias sem me lavar deixavam-me nervoso e cheio de comichão, mas estava tão cansado que adormeci logo. Às 5 da manhã, levanto-me sorrateiramente e pé ante pé vou direitinho à casa de banho a cambalear de sono, os cacos do jarrão já tinham sido apanhados, agora a porta lá estava encostada a uma parede.
Vou direito à banheira e abro a torneira da água quente e milagre, quentinha da silva, encho a banheira até acima e vou para a sanita, desta vez os intestinos já estavam a funcionar bem, só que entretanto, a água ficou fria porque levei muito tempo na sanita (que conversa né, tem de ser com todos os pormenores, afinal estou a falar da minha primeira vez) mas não há crise, esvaziei a banheira toda e voltei a enchê-la outra vez. Mergulhei lá dentro a desencascar-me, enquanto imaginava quantas vezes teria de encher e esvaziar a banheira para gastar a água toda da caldeira.
Estive de molho até ficar com as mãos engelhadas, depois fiz a barbinha, afinal era o dia da festa e tinha de estar apresentável. Vesti-me e voltei para a borda da banheira.
12 , foram as vezes que enchi e vazei a banheira, depois já nem quente nem fria corria da torneira. Fui-me então esticar em cima da cama e deixei-me dormir. Acordei com a Maria de Lurdes e a Cecília Cardoso a discutirem com o gerente, porque queriam tomar banho e não havia água… Oh que chatice , tenho tanta pena… Saio cá para fora, para as escadas e muito solidário digo NÃO HÁ ÁGUA? Bolas que chatice, o que vale é que tomei banho ontem, lá no pavilhão onde vamos actuar hoje.
O gerente olhava para mim e abanava a cabeça, meio divertido, enquanto explicava que alguém tinha gasto a água toda, mas quem seria? Quem pagou as favas foi uma família residente Belga, que estava no terceiro andar e pronto, missão cumprida cá se fazem cá se pagam, olho por olho dente por dente.
Tomei o pequeno-almoço e zarpei para o pavilhão. O almoço foi na casa de uns portugueses e o resto foi história com música.
Tocámos à tarde, depois à noite actuou o rancho seguido das variedades com as nossas vedetas, tudo muito bem regado acompanhado de boa comida, voltamos a actuar e no dia seguinte estávamos de volta.
Bem… Só que as peripécias não se ficaram por ali. Na volta, já em Espanha, o motorista pisa o traço contínuo e leva uma multa de 50 contos a ser paga na altura, senão o carro não saía dali. Desta vez foram os motoristas que pagaram sem mais delongas, depois passámos por Bilbao, fomos ás compras, ao Corte Inglês, mas o Luís Raminhos (saxofonista, já referido num post anterior), perdeu-se e estivemos mais de 3 horas à espera dele, acabando por aparecer num carro da Polícia…
Para terminar, quando chegámos à fronteira de Badajoz, tivemos de tirar toda a bagagem para a rua porque a Polícia desconfiou que ali havia contrabando e andou a passar tudo a pente fino. Vá lá que os amigos do rancho, como vinham a fazer um cagaçal do caraças, chamaram a atenção da Polícia e eles só viram os rebuçados e os chocolates, porque junto à aparelhagem vinham uns valentes pares de calças, blusões, Kispos, luvas e camisas. De quem eram? Não sei! Meu posso apenas garantir que era um blusão que, no meu francês das docas, na hora de pagar perguntei ao dono da loja, “Cante Cute?”. Traduzindo, eu perguntei simplesmente “Quanto custa?”
Ainda hoje quem assistiu a esse episódio me goza a torto e a direito. Mas o que é facto é que o “messiú” percebeu, eu comprei o blusão e paguei-o em Francos. Portanto, cada um desce as escadas como quer e seja o que Deus quiser.
Resumindo!
Esta foi uma das muitas primeiras vezes da minha vida, há muitas outras que eu recordo com saudade, como da primeira vez que fui tocar a Berna, na Suíça, a Erbach e a Zingen, a Cidade do Aço, como é conhecida esta cidade industrial, na Alemanha. Se continuarem a inspirar-me com as vossas mensagens de incentivo, histórias com tutano, é coisa que não me falta e antes que se apaguem da memória, tenho muito prazer em recordá-las e partilhá-las com os meus amigos leitore(a)s.
Sempre partilhei tudo e com todos sem discrição, sou amigo de toda a gente e adoro fazer as pessoas felizes. Cada desabafo é sempre uma primeira vez, em que eu sem tabus, só digo o que penso e sinto, mas sem papas na língua.
Não quero amesquinhar ninguém, só quero que as pessoas percebam que eu só quero viver em paz com a minha consciência e para isso, tenho de desabafar.
Tá dito? Tá Feito!...
(Carlos Camarão mentor do projecto musical Companhia Limitada )
quinta-feira, 12 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
A MINHA PRIMEIRA VEZ ! ( Desabafos 11 )
PARTE I
Os meus últimos Post’s têm-se pautado pela seriedade dos relatos. Embora reconheça a utilidade destes desabafos, a minha preferência vai para o relato das várias histórias que constituem a minha vida, conto-as com o intuito de divertir quem se dá ao trabalho de ler os meus desabafos.
Procuro dar sempre um leve toque de humor a tais peripécias, para que o leitor(a) se sinta confortável com a descrição das mesmas, embora a brincar seja capaz de dizer a verdade. Por isso hoje vou contar-vos como foi a minha
PRIMEIRA VEZ!
Vou dividir este Post em duas partes, porque penso que está na altura do leitor sentir o pulsar desta minha faceta de escritor para as “massas”. Ao longo da leitura, vá imaginando os pormenores de cada cena narrativa e, com toda a certeza, irá achar que a mim tudo me acontece. Por isso leia com atenção, deixe um comentário no blog, torne-se seguidor ou comente no facebook. Garanto-lhe que não se irá arrepender.
Então Bora lá!
Hoje vou optar por um flashback mais profundo e aproveitar para vos revelar aquilo a que, se eu tivesse os 5 alqueires bem medidos, não me exporia mas como dizem os meus músicos, eu já não tenho que provar nada a ninguém, por isso entendo que devo partilhar as minhas experiências, já que elas têm muito tutano e ajudam a passar o tempo a quem lê os meus desabafos.
Se você já colocou aquela cara de gozo do tipo, “é desta que o “gajo” se confessa” ou “querem ver que o gajo é bicha?”. Leia primeiro e comente depois os relatos de “A minha primeira vez”.
Atenção a um “litlle” pormenor, o termo bicha que eu aqui refiro, não tem o mesmo significado que a definição “gay”. Porque para quem não sabe, tenho sido muito pressionado para desvendar esta minha opinião, mas é um assunto que me merece todo o respeito e só o irei abordar quando estiver inspirado. Fica prometido que um destes dias vou “explicar” a diferença.
Pois “A minha primeira vez”, contrariamente ao que algumas mentes mais voyeuristas possam imaginar por agora, ainda trata da primeira vez em que me tornei Internacional!
Internacional? (dirá você) Sim!.. I.N.T.E.R.N.A.C.I.O.N.A.L.
Decorria o ano de 1984, altura em que o extinto Conjunto Holiday (visite o site www.companhialimitada.no.sapo.pt menu biografia) estava no seu apogeu. A agenda de contratos estava sempre repleta, éramos os “Reis” da Estremadura, Beira Baixa e Baixo Alentejo, tínhamos acabado de gravar o nosso primeiro 45 rotações, fazíamos bailes e ainda dávamos o suporte musical aos vários artistas que o solicitavam. No entanto, faltava-nos qualquer coisa…
Não éramos Internacionais!
Bolas! Não podíamos pintar na nossa carrinha, como se usava na altura, Conjunto Internacional Holiday, não sei se o leitor está a imaginar a pomposidade da cena, hoje qualquer badameco grava CDs e vai à televisão, mas há 20 e tal anos atrás a coisa fiava mais fino. No entanto e apesar das actuais facilidades, algumas das histórias, que certas revistas nos relatam, sobre a internacionalização de muitos “craques” que por aí andam, são tudo treta.
Eles realmente vão actuar ao estrangeiro mas sejamos realistas, actuam para as comunidades de emigrantes Portugueses e já gozam, mas deixemos estas “aventuras” para outra altura.
A nossa oportunidade surgiu quando trabalhávamos ao Sábado à tarde no Teatro Maria Vitória, no saudoso parque Mayer. Fazíamos o suporte musical dos artistas convidados e o responsável pelo programa era o saudoso Locutor da RDP, Luís Filipe Novais (Conforme já focado no post anterior)
Uma noite, estávamos nós a ensaiar na cave dos Franceses (uma colectividade do Barreiro), apareceu-nos ele com um sorriso rasgado a dizer, meus amigos venho contratar-vos para irem tocar a França! F- r-a-n-ça? Balbuciámos nós.
Naquela altura já não usávamos o beliscão para comprovar se era sonho ou realidade o que estávamos a ouvir, mas quando o Novais repetiu a frase mágica e desta vez o mais sério possível, o Nicolau tratou logo de fazer um charrito colectivo para comemorar a notícia.
Entre duas passas e umas fartas gargalhadas, assim a raiar o alarvismo, lá fomos confirmando os considerandos da proposta, mas era ponto assente que a minha primeira vez estava prestes a acontecer. Ficámos então a saber que íamos num autocarro de turismo com 2 condutores, para chegarmos o mais rápido possível e o destino seria Chamberry, em França.
Connosco iriam viajar os artistas, Maria de Lurdes Resende, Cecília Cardoso, Artur Garcia, além do rancho folclórico de Cambelas e alguns foliões que quiseram participar na minha primeira vez.
Chegou o dia da partida (para abreviar senão? )
A camioneta chegou de madrugada e lá carregámos os nossos tarecos nas bagageiras da dita cuja. Deixámos o Barreiro e fomos em direcção a Lisboa, à zona da Praça de Espanha, para “apanhar” os artistas acima citados. O Artur Garcia quando nos viu ficou assim pró enjoado, mas o pior estava para vir. (aguentem que vale a pena).
De seguida fomos para a zona de Mafra “carregar” o rancho. Ehehehe.... (riso idiota) Quando lá chegámos, deviam de ser umas 9 horas da manhã, já aquele pessoal estava todo animado dançando na estrada e com os familiares a assistirem, mas com uma bagagem pessoal tamanha que, se fossemos de avião, teria ficado tudo em terra.
O Novais apressou-se a chamar os alegres companheiros de viagem que só entraram depois de entoarem uma caninha verde, 2 viras e um baile mandado.
O Artur Garcia, por sua vez, mostrava uma cara de preocupado que contrastava com o semblante alegre das suas colegas, mas a “coisa” aqueceu quando ele começou a contar os passageiros e a ver que cada um, trazia na mão um garrafanito de 5 litros com a “água” da região.
Encheu-se de brios e comentou logo bem alto “mas isto é a excursão do pica o olho, tira o dedo croquete? Estes gajos vêm carregados com água, até parece que em França não há água!
Resposta de um “dançarino”: Oh senhor cantor desta não há! Esta é água-tinta.
O Artur ficou a olhar para mim e diz-me “Olha lá pá, tu não me digas que estes garrafões são de vinho?” E eu muito sério respondi-lhe: Não!.... Alguns são de aguardente.
O Artur deixou-se cair no banco e amuou até Badajoz. Estes primeiros quilómetros foram feitos ao som dos acordeões e dos ferrinhos, acompanhados de uns copitos da região e de uns pastéis de bacalhau que, entretanto, já tinham saltado dos cestos de verga que povoavam o corredor da camioneta.
Eu nunca imaginei que Espanha fosse tão “grande”, pois levámos o dia todo a andar com paragens aqui e ali para a ”mijinha” da ordem e quando caiu a noite, ainda estávamos a atravessar Madrid.
O ambiente estava mais calmo agora e tirando um ressonar quase colectivo dos nossos companheiros do rancho, tudo estava a correr literalmente sobre rodas.
Ao meu lado o Paulo, meu companheiro de estrada de tantos anos, dormitava e eu aproveitei para fazer um estudo ao ambiente que me rodeava, como é meu hábito.
No banco da frente ia uma senhora que levava como companheiro de viagem o seu filhote, um puto dos seus 7 anos, do tipo “o que vê transmite”, a plenos pulmões. O miúdo tinha-me adoptado para as suas gracinhas e brincadeiras dentro da camioneta e apesar de, insistentemente, lhe dizer para falar baixinho, ele fazia precisamente o contrário.
Eu, de olhos semicerrados, conseguia perceber que ele espreitava por cima do banco, à espera que eu baixasse a guarda para se meter comigo. Entretanto e como não havia mais nada para fazer aquilo começou a tornar-se monótono.
Com a excitação da “minha primeira vez” não conseguia dormir, afinal estava em Espanha né? Deu-me a fome e ataquei ferozmente umas sandes de “Jamon de pata negra” que tinha comprado na última paragem.
O raio do Jamon estava salgado e naturalmente veio a sede. Procurei no meu saco e não tinha nada para beber! Optei então por dar umas cotoveladas “acidentais” ao Paulo, para ele acordar e perguntar-lhe se tinha alguma coisa que se bebesse, já que o grosso do meu farnel estava na bagageira da camioneta e como os motoristas eram assim a atirar para o estúpido, parar para eu ir à bagageira estava fora de questão.
Nesta altura o Paulo diz-me meio birrento, como era seu costume quando estava com sono... Eh pá tenho aí leite com chocolate serve-te.
Leite com chocolate? Argh....
Mas a sede era tanta que comecei a beberricar o pacotito. Não sei se era por ter a boca salgada ou fosse o que fosse, aconteceu que o pacotito do leite soube-me como nunca e com um pedido de desculpas ao Paulo, cravei-lhe um segundo pacote e ainda mais um terceiro.
Ele, só para que eu não o acordasse mais, agarrou no saco e pôs-mo em cima das pernas e disse-me: Serve-te, já te disse!
Se ele soubesse o que estava para vir, não me tinha feito aquela oferta!
Como não tinha mais nada para fazer, fui bebendo os pacotitos de leite com chocolate e ao fim do nono pacote lá me dei por saciado. Ajeitei então a gola do casacão e preparei-me para dormir. Mas!....
De repente aquela mistura, das sandes de jamon e do leite com chocolate, começou a fazer um efeito devastador nos meus intestinos (atenção eu só vou falar deste assunto, por causa das pressões e chantagens que sofri para dizer a verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade, senão saltava este capítulo).
Primeiro foi um concerto em Ré Bemol, Lá de Sétima e Dó de peito, que as minhas miudezas intestinais aprontaram e que o puto da frente logo se lembrou de amplificar, naquela sua vozinha maviosa:
”Aímmmm as suas tripas estão a fazer ganda barulho”.
Eu, ao ver o meu estômago inchar parecendo mais uma grávida aos 6 meses de gestação, depressa concluí, “gaita” acho que me vou borrar todo!
O puto maravilha, continuava a mirar-me com aqueles olhinhos impiedosos, enquanto eu me contorcia com dores de “barriga”.
Parar a camioneta em plena noite, estava fora de questão, a não ser que fosse uma emergência?
Mas que raio, esta situação era mesmo uma emergência, só que eu “morria” de vergonha só de pensar em pedir, àqueles sisudos motoristas, que parassem para eu me aliviar.
Então tive uma ideia que me custou duas caixas de chicletes, uma esferográfica de 4 cores e um porta-chaves com a fotografia do Pato Donald! Consegui convencer o puto a abrir as “goelas” e gritar que queria fazer “xixi”.
Ao fim do décimo grito com um QUERO FAZER XIXI, a mãe do petiz, lá se levantou e foi pedir ao motorista de serviço que parasse, mas ele argumentou com um: Minha senhora, nós estamos na auto-estrada e não posso parar aqui!
Mas esta resposta não foi nada que uma mãe ensonada e preocupada não resolvesse retorquindo: o Srº quer que o meu filho faça xixi no corredor do autocarro? Tudo bem!
Foi remédio santo, o motorista abriu o pisca e encostou na berma, com um aviso: Ele que se despache porque se a polícia me apanha espeta-me uma multa e olhe que os espanhóis não brincam em serviço.
Assim que a porta se abriu, entrou um frio de rachar que até fazia doer os ossos. Eu numa atitude cavalheiresca ofereci-me para ir com o puto à rua, quero dizer neste caso mais propriamente à berma da auto-estrada. A mãe agradeceu-me com um reparo: Por favor não lhe largue a mão. Pego apressadamente no puto ao colo e saio para a escuridão da estrada.
Ao pousar o miúdo disse-lhe: Vá agora despacha-te que eu vou fazer o mesmo! E o reguila virou-se para mim e ripostou: Mas oh senhor, eu não tenho vontade de fazer xixi!
E euL….: Sim, mas espera aí que eu tenho!
E dito isto baixei as calças com uma mão, enquanto com a outra segurava o “pestinha”.
Assim que me dobrei valha-me santa Bárbara, foi uma descarga de gases que o miúdo até emudeceu.
E surpresa das surpresas nada de fezes, só “metano”!...!! Ora esta? Então... só isto? Pensava eu!
Mas não tive tempo para pensar em mais nada porque um dos motoristas já vinha de lanterna na mão à nossa procura. Vesti as calças à pressa e aliviado entrei para a camioneta trocando um piscar de olho cúmplice com o meu pequeno chantagista salvador.
A camioneta retomou o caminho e a mãe, num tom repreensivo, disse ao filho, agora faz o favor de dormir e não me incomodes mais! E com um “tá bem mãe” lá se sentou, mas continuou de olho em mim, por entre os dois bancos.
Então eu pensei “bem o mau tempo já passou” e ajeitei-me no banco para tentar dormir, mas qual quê? Começa a barriga a inchar novamente e eu em pânico tentei “aligeirar” a situação, pondo o rabiosque a jeito e fazendo descargas sucessivas de gazes que, depressa, empestaram a camioneta (isto é o que se chama uma conversa de M...).
O puto, por sua vez, começou a “farejar” qual perdigueiro e olhando para mim soletrava com um ar descarado muito baixinho, c-h-e-i-r-a m-a-l.
Eu tentava pôr um ar o mais descontraído possível e acenava com a cabeça que não mas ele, sem demoras, fazia também com a sua cabecita que sim enquanto eu ia continuando a acenar que não. Isto foi o suficiente para eu aprender, que não se deve contrariar miúdos daquela “estirpe”, porque ele resolveu “abrir as goelas” e passou a gritar:
Cheira cheira, cheira muita mal, cheira cheira, cheira muita mal!
A cada bis, o “terrorista”, ia aumentando cada vez mais a potência do seu amplificador vocal, enquanto, com as mãos, ia batendo nas costas do banco incomodando a mãezinha e os passageiros que iam a dormitar.
Eu insistia, por mímica, que não senhor, mas perante a insistência dele e vendo que as pessoas estavam a acordar, disse-lhe baixinho: Olha, estás a ver este senhor aqui ao lado? Ele está doentinho da barriga mas não digas nada a ninguém e dando uma cotovelada ao Paulo disse, não é Paulo? O Paulo só para não me aturar, virou-se para o lado da janela ao mesmo tempo que dizia bem alto sim é verdade, é tudo verdade mas agora deixa-me dormir pá.
Bem a partir dali, e porque já havia um culpado para apontar, aumentei o “caudal” das descargas e realmente o ambiente era altamente insuportável, agora já toda a gente comentava baixinho. Toda a gente não, o “desnaturado” do puto não se calava e já apontava o dedo ao Paulo e dizia: É ele, é ele. Oh mãe, este senhor tá-se a peidar mãeeeeê!
O que vale é que o Paulo tem o sono pesado, eu apesar de tudo estava a sentir um gozo enorme naquilo tudo e mordia a língua para não me rir, o Artur Garcia, na altura visivelmente incomodado (esqueci-me de dizer que nós íamos ao meio da camioneta e o Artur ia no banco da frente logo atrás do motorista), levanta-se e diz com um ar solene e indignado: Oh meus senhores do rancho, vejam lá se controlam a tripa, porque o carro não tem janelas e isto está a tornar o ar irrespirável!
Ainda hoje não consigo perceber, porque é que o Artur achava que eram eles os culpados, mas enfim eu não estava em condições de olhar a meios para atingir os fins e lá continuei, paulatinamente, a tentar sobreviver àquela noite de “terror auto-gaseificante”.
A certa altura o Artur Garcia levantou-se do banco muito furioso e munido de dois sprays de desodorizante vazou-os literalmente na camioneta.
Não houve outra alternativa senão parar porque agora intoxicava, felizmente já tínhamos saído da auto-estrada.
E assim foi o resto da noite, até que pela manhã chegamos à fronteira da Espanha com a França.
Enquanto esperávamos na fila de acesso à zona alfandegária, alguns passageiros, aproveitando o facto da, porta estar aberta, saltaram para a rua e eu como era novato nestas andanças e estava fascinado porque nunca tinha estado tão longe de casa, saí também munido da minha Yaschica de 8mm e “desatei” a filmar à esquerda e à direita, tudo o que podia.
Até que, ao tentar focar a uns 50 metros um elemento da guarda civil espanhola, percebi que ele gesticulava furiosamente sem eu saber porquê.
De repente, vejo-o de apito na boca a soprar qual árbitro de futebol e a correr direito a mim!
Eu, à cautela, desligo a máquina e tento fugir para dentro da camioneta, mas já lá estavam dois outros guardas que vieram pelas traseiras.
Um deles arranca-me a máquina da mão e sem mais demoras tira o cartucho com o filme e, nas minhas “ventas”, parte o cartucho debaixo daquelas botifarras.
Queriam à viva força revistar-me a mala da máquina, mas eu num gesto de coragem, mostrei-lhes que os filmes estavam selados e eles num castelhano com basco á mistura passaram-me um correctivo, pois só mais tarde vim a saber que é proibido filmar nas fronteiras e ainda por cima, estávamos numa zona onde a ETA tinha feito um atentado uma semana antes.
Eu não sabia né?
Bem, meti o “rabinho” entre as pernas e lá voltei para dentro da camioneta, mas antes ainda glorifiquei bem alto, perante o ar incrédulo dos “guardias”, a padeira de Aljubarrota por ter enfardado nos antepassados daqueles gajos, à força toda.
Passámos a fronteira espanhola, andámos 30 metros e nova paragem. Agora era a fronteira de francesa.
Mais uma seca, pois estivemos na iminência de termos de voltar para trás.
Tudo porque o nosso passaporte era um especial colectivo, passado pelo consulado e havia 2 passageiros que estavam em situação ilegal, mas juro que não era eu.
Depois de muita conversa e alguns telefonemas do Luís Novais, a falar com os “Bosses” lá do burgo, em Portugal, a “coisa” ficou por uma caução de 200 contos, que deveríamos levantar na volta.
Fizemos uma “vaquinha” e lá se arranjou a massa, em escudos claro e seguimos viagem.
Já em terras francesas, a noite caiu com a excursão do pica o olho, tira o dedo do croquete (versão de Artur Garcia), algures numa zona dos Pirenéus. Não me perguntem qual, porque eu ainda estava debilitado da outra noite. Parámos numa povoação onde só havia um bar aberto e o pessoal aproveitou para comprar umas sandes feitas em “cacetes” tipicamente franceses, só que desta vez, já não houve leite para ninguém além do mais, eu estava com prisão de ventre (não esqueça este pormenor) e lá fomos rolando noite fora com os motoristas a revezarem-se e eu muito aconchegadinho na minha canadiana com o capuz enfiado pela cabeça abaixo.
Estava um frio de rachar dentro da camioneta e enquanto eu tentava adivinhar onde estávamos e quantos graus estariam na rua, apercebo-me que a camioneta parou. Mau! Então este “embirrantes” agora já param por tudo e por nada? Infelizmente foi mesmo por nada, porque aquelas “alimárias” deixaram acabar o gasóleo, algures numa zona dos Pirenéus e num lugar tipo fim do mundo, visto que era de noite. E agora? Se com a camioneta em andamento já estava um frio de rachar, imagine o leitor o que seria com ela parada?
ESTÁ A GOSTAR DESTAS PERIPÉCIAS?
Então vamos combinar uma coisa, vou esperar por alguns comentários dos meus queridos leitores. Se valerem a pena, eu acabo de contar o resto da aventura onde aconteceu de tudo um pouco e ainda mais do que possa imaginar… Ora mostre-me lá, que você é apreciador(a) de uma boa história verídica e logo para, a minha primeira vez.
CONTINUA…….
Por agora Tá dito? Mas não Tá feito aindaJ
Carlos Camarão (Mentor do projecto Companhia Limitada )
quinta-feira, 5 de abril de 2012
QUEM QUER SER PROTAGONISTA ? ( Desabafos 10 )
Hoje, vou dar continuidade à minha saga expulsando mais alguns esqueletos do armário, há muitos anos guardados, para poder viver em paz com a minha consciência. A ideia é fazer-me ouvir sem truques nem omissões, a não ser que a memória me falhe, e ao mesmo tempo, pondo os pontos nos Iiiis na hora H.
Não pretendo ofender nem linchar ninguém, mas a César o que é de César!
Começo por afirmar, que ao longo da minha vida nunca confundi protagonismo com liderança! O protagonista, não precisa de uma formação específica e muitas vezes está associado ao tipo do ser humano básico e idiota, que sofre de um “alarvismo” tal que chega para irritar uma casa de família. Curiosamente, muitas vezes terei dito mais do que precisava ou alguma vez tenha pretendido, acabando por ser o protagonista activo que passa de bestial a besta com uma velocidade impressionante. Tendo sido este, o mote escolhido para o meu desabafos 10. Sinto que ao escrever, encontro paz e resposta para muitas das minhas dúvidas, porque uma coisa é que alguém me considere uma besta-quadrada outra é eu acreditar nissoJ
Na verdade, penso que todos nós temos algum protagonismo no nosso dia-a-dia. Quando somos chamados a dar um passo em frente e as “luzes dos projectores” incidem sobre nós estamos mais que prontos, quer queiramos quer não, para mais um “take” na “longa-metragem” da nossa vida.
Faz parte das regras mais elementares do viver em sociedade. Mas lá que o sejamos por defeito, isso não quer dizer que estejamos preparados para liderar, porque para tal é necessário ter pulso firme, mas também saber ser tolerante.
Quando ingressei no Holiday, em Agosto de 1970, fui tocar com músicos já maduros, eu era o puto, o sangue novo que eles precisavam para se manterem à tona. O que lhes sobrava em experiência careciam em novas ideias. Quis o destino que eu entrasse na altura certa, uma vez que o Holiday já tinha entrado numa fase em que os seus músicos pouco mais tinham e/ou queriam dar.
Eu era um jovem inexperiente, mas percebi que dentro do grupo existiam regras de ouro (outra vez as regras até pareço um ministro das finanças). Mas antes que alguém comece a divagar tipo, mas este senhor sempre foi um não-alinhado como é que ele fala tanto em regras? É simples! Se nos acomodarmos, podemos estar a hipotecar o nosso negócio, a nossa relação e quiçá a nossa vida e lá porque as “coisas” estão más, não vou ter que me afundar com elas. Assim, com 16 anos apenas, eu salto do anonimato para o protagonista do conjunto Holiday e, em pouco tempo, estava a liderar uma equipa que tinha construído o seu nome, à custa de muito trabalho e dedicação. Mas este protagonismo forçado deu-me o traquejo suficiente para me conduzir pelos caminhos sinuosos do “show business” até aos dias de hoje.
Sintetizando!
Eu não quis ser protagonista, nem líder de coisa nenhuma, ainda hoje prefiro ser mandado a ter de mandar, no entanto, gosto é de ser bem-mandado e sou intolerante com o despotismo ou a arrogância.
Muitos anos depois, já habituado á luz dos projectores percebo que este protagonismo me arranjou algumas animosidades crónicas, mas se até Jesus Cristo não conseguiu agradar a toda a gente como é que eu, um simples “Senhor” que não faz mal a ninguém e que acaba por ser vitimado pela santa inquisição, na pessoa de quem me idolatrou quando eu estava a dar, e me despeita quando me nego a pactuar com mentiras e quero fazer valer os meus direitos?
O caricato, é que eu nunca procurei protagonismo fútil e quando dou por mim acabo a liderar, será que isto também é karma?
Ora aqui vos descrevo alguns exemplos.
Vou começar por me reportar aos tempos do “meu” Holiday!
Sem eu pedir e quando dei conta, ninguém dava um passo sem me consultar, já estou a falar do Holiday pós anos 80. Na altura, tínhamos um saxofonista de seu nome Luís Raminhos, infelizmente já desaparecido do nosso convívio, que para além de ser um belíssimo músico era também uma jóia de companheiro, um destes dias vou escrever um anedotário sobre as aventuras de todos os que passaram pelo Holiday, que se irá chamar SANTA PACIÊNCIA J. Mas agora, porque o assunto é muito sério, vou deixar a sátira para o “post” seguinte.
O Luís Raminhos, um dia queixou-se de dores na coluna, era o princípio de um longo calvário que acabou por vitima-loL. Depois de ter sido submetido a uma operação muito delicada, ficou incapacitado de dar o seu contributo. Como líder, por defeito, do projecto Holiday, tive de pensar numa solução. Na altura, ainda vigorava um regulamento interno no conjunto, que havia sido assinado por todos os elementos e já vinha do tempo do meu pai e colegas, desde a altura dos Mexicanos, posteriormente designado Holiday In Portugal e que, de grosso modo, dizia o seguinte: O Património do conjunto é da propriedade de todos os elementos que assinaram este documento. No entanto, se algum dos elementos abandonar o conjunto sem justa causa perde todos os direitos sobre o mesmo. Na prática era uma regra de Ouro, que impedia os elementos de saírem de cabeça quente e nos mantinha unidos por mais discussões e arrufos que surgissem.
Posso afiançar que esta regra foi a causa da longevidade do Conjunto Holiday, tendo durado, sem exagero, meio século. Esta regra base já existia quando eu entrei e eu adoptei-a nos 30 anos seguintes.
Como podem ler no “Post” anterior quando eu falo em regras que não podem ser quebradas, não o estou a fazer em vão só que, por uma questão de ética e cumplicidade, as mesmas não são divulgadas nem a nível familiar, daí que algumas pessoas possam achar que sou injusto quando, sem mais nem menos, eu dispenso um elemento do grupo como foi o caso das pessoas citadas no Post 9 “VAMOS A CONTAS 13 ANOS DEPOIS”.
As regras que me foram passadas, adaptei-as aos tempos e às pessoas que comigo vão trabalhando e GAITALLL, quando é para entrarem aceitam tudo mas quando começam a falhar, já sou injusto? Enfim, não me quero desviar muito do assunto que trato neste Post só que, no mínimo, isto devia dar que pensar a essas pessoas.
Não me condenem sem me ouvirem! Porque se estiver errado, uma boa conversa tranquila e aberta tem-me resolvido muitas situações delicadas, só que é muito mais interessante às mentes tacanhas e de fraquíssima memória apoiar pela negativa, mordendo a mão de quem os ensinou a ladrar.
Adelante hombreJ
Voltando ao caso do malogrado Luís Raminhos, quando percebi que a situação era grave e incapacitante, tive de puxar para mim a responsabilidade do assunto e desloquei-me à casa do Luís Raminhos acompanhado de um candidato ao seu lugar, cujo nome artístico era Filipe N’jojoJ, desculpem a ironia do nome, mas era a alcunha dele. O Filipe pretendia comprar a parte do Luís para entrar no Holiday, pelo que lá falaram e acertaram as condições entre ambos. O Filipe N’jojo pagar-lhe-ia 100 mil escudos, isto há 28 anos +ou - e ainda ficava com o seu instrumento, que tinha sido usado como fiança quando entrou para o Holiday, a fim de todos ficarem com partes iguais.
Tudo isto foi transparente e feito sem sobressaltos. O Filipe também acordou que lhe pagaria em prestações e, à partida, o assunto ficou devidamente esclarecido e arrumado.
De quando em vez, perguntava ao N’Jojo como é que estava a dívida, respondendo-me este, que estava a pagar conforme o combinado. A partir daí eu não tinha mais responsabilidade no negócio ficando, de certa forma, de bem com a minha consciência.
Quis o destino que o Luís viesse a falecerL ficando a sua viúva, como é óbvio, com o direito de receber o que ainda faltava pagar, tendo o Filipe essa responsabilidade.
Da última vez que falei com o Filipe sobre ao assunto, ainda ele tocava comigo no Holiday, disse-me que ainda lhe faltavam 15 mil escudos.
Não sei se era mentira ou verdade mas penso que, no mínimo, não tinha o direito de duvidar do N’Jojo, pois tinha-o como uma pessoa séria. Do que eu tinha a certeza é que a dívida não estava totalmente paga, sendo certo que várias vezes aconselhei o Filipe a, pelo menos, dar a cara e se possível pagar tudo o que devia. Pelos vistos não o fezL.
A viúva que me conhecia desde miúdo, em vez de vir falar comigo e contar-me que apesar de eu ter chamado o Filipe à atenção, já que por defeito era o líder do conjunto Holiday e podia tentar forçar a resolução da situação, não o fez e claramente passei a ser o protagonista com o papel do mau da fita, (sim porque há protagonistas bons) tendo sido verbalmente desancado (vá lá) e apodado de vigarista, chulo entre outros mimos.
Pior é que essa senhora resolveu dizer isto tudo à minha própria mãe que até àquela altura tinha sido a sua amiga de longa dataL.
Quando soube disto, logicamente que me apeteceu dar-lhe o troco, mas em memória do meu amigo, e atendendo ao desespero que a levou a dizer o que disse, não o fiz. No entanto, chamei o Filipe N’jojo à responsabilidade e fiz-lhe ver que a incapacidade dele para gerir com transparência a situação, fez com que a senhora se dedicasse a denegrir a minha imagem. E se à minha mãe ela me mimou com tanta violência, eu faço uma pequena ideia, do que ela não disse às outras pessoas.
Mas pelos vistos o N’Jojo nunca cumpriu a sua palavra já que a viúva, entretanto emigrada para o Canadá, quando se deslocava a Portugal e ainda durante algum tempo, continuou a mimar-me com os piores nomes possíveisL.
Onde quer que estejas, agora que eu repus a verdade e em memória do teu marido, quero que saibas que também perdoei as injustiças que cometeste comigo e se, em vez de me condenares, tivesses vindo falar comigo, tinhas poupado muitas pilhas de nervos aos dois.
Graças á internet, há cerca de 2 anos, recebi um e-mail da filha do Luís, hoje uma senhora casada a residir no Canadá, onde me contava que afinal a doença que vitimou o seu querido pai tinha sido um tumorLLL.
Juro que nunca antes tinha sabido dessa parte.
O Luís sempre disse que o problema na coluna dele tinha sido por causa de uma queda que deu no balneário do seu trabalho. Quando o fui ver ao hospital ele tinha sido operado à coluna e se ele o sabia nunca me disse. Peço perdão se fui egoísta e ignorante, mas vigarista e chulo é que eu nunca fui. Lamento, acima de tudo, ter sido o protagonista forçado desta história tão triste. Também não receio a justiça divina porque Deus sabe que estou inocenteL………. e não sou um oportunista da Fé.
Como este caso, para mim o mais grave de todos nos 30 anos em que estive a liderar o Holiday, eu podia enumerar centenas deles, em que podia provar que nunca quis ser protagonista, admito que alguém tem de dar a cara, admito que ao fazê-lo se arranjem ódios de estimação, mas não posso continuar a ser o bode expiatório de quem quer fazer de mim o bombo da festa.
Não sou santo, apesar de ter coroa, mas o meu erro é confiar demais e acima de tudo não ter maldade. Este meu jeito “naïf” tem-me dado grandes dores de cabeça, porque não consigo meter toda a gente no mesmo saco e volto a cometer os mesmos erros.
Liderei o projecto Holiday 30 anos, fui o protagonista forçado na maioria dos casos, todos os que tocaram comigo sabem bem que eu fui um lutador, se fizemos televisão, se fomos internacionais, se fizemos concertos, se gravámos discos, se fomos uma banda de referência para acompanhar grandes artistas da nossa praça, tive de carregar com todos eles às costas, porque sem mim nem um dia se tinham mantido unidos. Não me importo nada, mas mesmo nada, que achem que me estou a gabar, porque a verdade é esta! E se é mentira digam-me porque é que quando deixaram de tocar comigo, nunca mais tocaram com ninguém? Sabem porquê? Porque eu vos trazia ao colo a todos e quando deixei de vos dar de mamar, nunca mais foram músicos, nem de brincar! Eu amo o que faço, sabem porquê? Porque sou honesto! Sabem porquê? Porque sou solidário! Sabem porquê? Porque EU sou BURROJ!!!
Posso afirmar com orgulho que, se o Holiday alguma vez foi um conjunto de referência, foi única e exclusivamente graças a mim. Desculpem lá qualquer coisinha, mas eu fui o BURRO de carga que carreguei um pesado fardo durante 30 anos. Vocês amigos sabem que eu podia ter-vos virado as costas. Se é mentira, perguntem a todos os artistas, que tivemos o prazer de acompanhar, quem era o HOLIDAY?
Mais um episódio caricato para reforçar o que estou a afirmar.
Certa altura da nossa carreira, estávamos a trabalhar no Parque Mayer num programa semanal que se chamava Fim-de-Semana, uma ideia do saudoso locutor da Emissora Nacional Luís Filipe Novaes. De entre as nossas funções de músicos, destacava-se uma delas que consistia em acompanhar artistas da nossa praça, mas tudo em cima do joelho. Foi lá que conheci a Alexandra, o Cid, e tantos outros que já tínhamos acompanhado pontualmente.
Chegávamos todos os sábados, ao Parque Mayer, às 9.30 h e o programa só era às 15.00, no Teatro Maria Vitória. Todos os sábados o Luís Novaes, levava artistas de nomeada para reforçar o concurso para descobrir novos valores que durou 6 meses, mas vamos em frente.
Enquanto eu ficava de castigo mais o baterista da altura, o meu amigo Henrique Lafé (nome artístico), os outros batiam-se alegremente num jogo de matraquilhos, numa das salas de diversão que existiam na altura no Parque Mayer.
Eu ficava ali a tapar o buraco e a cozer a manta para depois distribuir o trabalho por todos ou seja, preparava a papinha toda para depois ficarmos todos bem vistos. Na prática, eu estava a ser protagonista à força, porque sozinho dava a cara por todos. Na altura, eu andava com um furúnculo na nádega esquerda J. Eu que raramente tive borbulhas na juventude, logo me havia de aparecer aquela “porra”, tendo estado na iminência de ter de ser lancetadoL mas não fui deixem lá. Andei assim várias semanas custando-me muito estar sentado já se vê. Entretanto o Luís Novais sempre que o show terminava, vinha dar os parabéns pelo excelente trabalho elaborado pela equipa e eu nunca, em tempo algum, tentei puxar para mim os louros, nunca o fiz até hoje e tudo porque eu não queria ser protagonista. Dava-me ao trabalho de os avisar em particular: Vocês têm de se chegar à frente, porque um destes dias posso não estar à altura dos acontecimentos e vocês não vão estar preparados, dado que nem sequer conseguem ter um método de trabalho. Aqui era o “líder” a tentar responsabilizar a equipa, não os minimizava, simplesmente preocupava-me o facto de que terceiros viessem a descobrir as fraquezas de cada um de nós, não sei se me faço entender, mas aceito dúvidas e respondo a quem as tiver ao ler este Post.
E não é que o tal furúnculo na “nalga”J inchou de uma maneira que num daqueles sábados tive de ficar em casa a fazer tratamento para conseguir rebentar o furúnculo e eles, muito solidários, foram à frente para o teatro e eu seguiria mais tarde. Apesar de não estar nada bem, às 12 horas meti-me no carro e lá fui direito ao Parque Mayer. Quando chego à porta do Teatro Maria Vitória, estava o Luís Novais de mãos na cabeça e só me disse: Oh Carlos Camarão ainda bem que você me aparece, porque aqueles indivíduos não sabem tocar sem si, estou decepcionado.
Engoli em seco e defendi-os logo ali com um desculpe lá oh Luís, mas deve haver aí um equívoco qualquer e ele, Ai há? Então vá ver! Quando entro no palco do Maria Vitória, estavam os meus músicos envergonhados a um canto e 2 artistas mexicanos, bravos com a banda. O Luís, assim que me viu disse logo num espanhol de Campo de Ourique: Este é que é o chefe da banda e agora vai ficar tudo bem. Eu corei, porque não queria, não tinha pedido e muito menos naquela manhã eu queria ser o protagonista a bancar o bom da fita. Os Mexicanos olharam para mim, sorriram e esperaram. Virei-me para a banda e perguntei então pá? Que é que se passa? Vocês nem a porra da Malaguenha conseguiram acompanhar? Bem, usando uma linguagem que só quem trabalha comigo entende. Meia hora depois, lá fomos todos almoçar sem mais sobressaltos.
Ok! Ok! Se calhar alguns leitores poderão pensar, este “tipo” não pára de se armar em salvador da Pátria.
E cá está!
Se pensaram assim, estão errados! Porque me estão a dar um protagonismo que eu nunca, mas nunca quis.
Nesse dia fui o líder mais uma vez e limitei-me a salvar a honra do convento, porque reparem, eu não disse que toquei sozinho pois não? Simplesmente liderei a equipa e levei o barco a bom porto, mas não tenho a menor dúvida de que fui um protagonista para terceiros e sujeito a apreciação dos mesmos.
Naquele dia com o raio do furúnculo a morder-me literalmente a “nalga” e cheio de febre, só queria ter chegado ao teatro, perguntar sobre o que havia para “comer”, sentar-me ao piano e fazer a minha parte. Fiz-me entender?
Agora há um reverso que me veio à memória e é por isso que eu escrevo estes desabafos, porque um dia se a dita me começar a atraiçoar, eu ao ler isto me interrogue: Mas eu fiz isto tudo? Ena pá afinal sempre tive uma vida cheia de peripécias e aventuras sem fim. Sim porque mal por mal antes assim que no hospital.
(Nesta altura começo a ficar aflito, porque queria poder contar tudo, mas escrevo tal como falo e quando começo nunca mais me caloJ. Desculpem-me! Se acham que o Post é muito grande, vão lendo aos “bocados” tal como se lê um livro, ele não vai desaparecer, nem se estragaJ. São tantas as histórias que afloram à minha mente, em catadupa, que não consigo parar de escreverJ)
Um dia, porque há sempre um dia, eu não quis ser protagonista e lutei por isso, no duro, fiquei a “arder” literalmente com 1.000 contos (5.000 € ) Agora leiam o porquê.
A minha saudosa amiga e grande artista Barreirense Mariete Pessanha, que já referenciei num dos meus anteriores desabafos, certo dia desafiou-me para trabalhar numa revista à Portuguesa com vários artistas de nomeada que estavam ligados ao Teatro de Revista. Ora deixem-me lá recordar alguns nomes para saberem do que falo. Joel Branco, Artur Garcia, Mariete Pessanha, Herlinda D’Almeida, Fernanda Batista, Diana, Mila Ferreira entre outros nomes menos sonantes, mas com igual valor. Os figurinos eram de Carlos Mendonça, o mesmo que tem dado várias vitórias à Marcha de Alfama pela altura dos Santos Populares e a produção era de uma empresa que se chamava Boutique de Estrelas. Depois de muitos ensaios, lá estreámos no Teatro Maria Matos, estivemos em cena 15 dias. Porque a ideia era tornar o show itinerante. A revista chamava-se “E VIVA O VELHO” que veio a revelar-se um sucesso tal que a produtora, da qual escuso mencionar o nome já que identifiquei a empresa, resolveu mudá-la para o Teatro Variedades. Para nós era o regresso ao Parque Mayer. Fizemos o contrato com a empresa e o pagamento dos espectáculos, realizados na Maria Matos, foram feitos atempadamente, cumprindo o combinado.
Uma vez instalados no Teatro Variedades, lá começaram as sessões diárias em dias úteis e 2 sessões ao fim-de-semana e feriados. Estivemos lá, cerca de 5 meses. A minha vida era um corrupio, já que paralelamente à minha profissão de músico, eu acumulava a de funcionário da C. M. Barreiro, o que na prática fazia com que eu trabalhasse das 9 às 17.30h e depois rumasse a Lisboa, só chegando a casa cerca das 2 da manhã, para no outro dia voltar ao mesmo. Era uma experiência nova que nos dava mais visibilidade e estávamos na catedral do teatro de revista, com o nosso nome em letras grandes pintado em Outdoors à entrada do Parque. O cachet para variar não era famoso, mas a minha máxima de semear para colher ainda estava no apogeu. Para além de músico, era o condutor de serviço e lá ia a equipa toda, com a Mariete Pessanha à boleia. O tempo foi passando e eu comecei a aperceber-me de que as despesas estavam a ser maiores que as receitas e quando assim é já se adivinha que mais tarde ou mais cedo a “bomba” rebenta.
Eu não queria que ela rebentasse nas minhas mãos, porque os pagamentos só eram feitos ao final de cada mês, mas no decurso do mês era eu que avançava com o dinheiro do meu bolso para as despesas de transporte e jantares, excepto com a Mariete. A pouco e pouco começo a aperceber-me que o staff de apoio começou a receber ao dia, preocupado fui logo tentar saber porquê? Alguém, me avisou que a produtora estava a queimar os últimos cartuchos e que eles reivindicaram o pagamento ao dia ou abandonavam o Teatro.
Bem, estava na altura de ser o protagonista mau da fita e ir lá também pedir o mesmo acima de tudo porque, a meio do mês já tinha custeado uma boa quantia do meu bolso. Imaginem todos os dias jantar fora e a caminho de Lisboa?
Numa noite, quando vínhamos do teatro a caminho de casa, preocupado eu desabafo e proponho irmos, no dia seguinte, ter com a produtora e dizer-lhe que tinha que nos pagar à semana, porque eu não estava a conseguir custear mais as despesas. Bem! Os meus colegas como não tinham os bolsos a arder, encolheram os ombros com pouco entusiasmo, mas ouvi das boas da Mariete, que desatou a gritar comigo, que eu não tinha nada que fazer isso, que não podia ser desconfiado, que ela nunca tinha ficado a dever-me nada e bla bla blaL.
Eu e a Mariete sempre tivemos um bom relacionamento, mas ela tal como eu era muito temperamental e quando assim é o choque era inevitável, no entanto depois da tempestade vinha sempre a bonança. Éramos colegas e amigos e ambos amávamos o que fazíamos. Mas eu não me atemorizei com os remoques da Mariete e fui mesmo ter com a produtora, que muito a custo lá me disse que a minha revindicação não constava do contrato mas que ia fazer um esforço para me atender.
A Mariete quando soube o que eu tinha feito, chamou-me ao camarim antes da sessão começar e foi assim, +,+h+h+m+m+hg+df+jm+,+h+g+fd+n+b+df+++.+..+.+.+h+f+gdf+J impróprio para consumo. Eu respondi-lhe =)(KJÇlçl’flfkg’º’º’ikuhjhpu’’0«’opjl7ulhL e pronto ela lá me convenceu a ficar calado mais uma semana.
Entretanto a produtora, tal como eu esperava, não cumpriu a promessa e ainda me trouxe um contrato para nós irmos trabalhar para o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, eu assinei o contrato, afinal já estava entalado mesmo e se ela falhasse teria de arranjar músicos à pressa, mas no caminho de volta a casa levei a respectiva desanda da Mariete, tipo toma lá que é para não seres desconfiado e aprenderes a estar calado etc., etc., etc…
Você, por acaso, ainda não percebeu que eu nesta história estou a ser protagonista à força?
Não? A sério? Não está a ver onde?
Admito! Porque só tantos anos depois, graças a este desabafo, é que eu percebo como e porquê, senão vejamos.
Os meus queridos colegas assumiam o papel de advogado do diabo, porque não eram eles que estavam a ficar prejudicados com a história, naquela altura já tinha investido do meu bolso perto de 30 contos (150 €uros), estava na iminência de não receber um cêntimo, mas a julgar pela cara de felicidade que eles aparentavam, afinal eu é que estava nos cornos do touro e tinha, segundo a Mariete mau feitio, porque estava a ser protagonista, já que era o único que me manifestava contra o esquema trapalhão que eu tinha detectado atempadamente.
Nos dias seguintes falei com todos os artistas da Companhia e a conclusão a que cheguei, foi que eles não se importavam de ficarem prejudicados, se isso lhes desse algum protagonismo.
Para explicar melhor esta parte, teria de entrar em pormenores mais íntimos, para defender porque cheguei a esta conclusão, mas tenho muito respeito e carinho por todos, além do mais eu não quero ser mais protagonista nesta história do que já fui.
Resumindo, fiquei com um contrato na mão que, tal como eu pensava, foi a última tentativa da produtora para salvar a época, só que infelizmente também para ela, surgiram pormenores de última hora que não deixaram que a revista fosse para o Porto e foi o fim.
Quanto ao valor a que nós tínhamos direito receber, cerca de 5.000 €, foram para o maneta, mais cerca de 200 € que eu tinha posto do meu bolso. Agora diga-me lá eu fui líder ou protagonista? Então vamos lá esfolar o rabo e ver se eu consigo concluir.
Sabem porque é que eu estou tão amargo, porque o tempo não volta para trás! E apesar das aventuras que vivemos, que dariam para ficar a escrever durante mais de um ano sem parar, eu errei!
Errei porque tive pena!
E para concluir vou, por agora, só falar de mais um caso, este mais recente e vou revelar a minha faceta de funcionário dos TCB…
Dentro desta empresa tenho sido o chamado pau para toda a colher, não entendo porque durante anos, com tantas provas dadas sobre a minha capacidade de criar, organizar e até de liderar, nunca nenhum crânio responsável pela edilidade, me tivesse proposto desempenhar funções por exemplo no pelouro da cultura, eu tenho uma teoria, mas não gosto de meter tudo no mesmo saco.
Nestes últimos anos de trabalho nos TCB, para além da responsabilidade pelo serviço de alugueres da empresa, onde usei a minha experiência de vida para adquirir novos clientes, tinha ainda a função de fazer atendimento público e gerir a parte de multas passadas a espertalhões, que teimam em viajar à borla, entre outras situações em que eu era chamado a dizer presente. Bem é para isso que me pagam. Na minha cabeça já existia a ideia de pedir a reforma antecipada, mesmo vindo cortado eu queria e quero tentar, uma vez na vida, fazer o que mais gosto, estar em palco ou ligado à música. Já tenho 42 anos de casa e pronto, não tenho mais hipóteses de subir na carreira, devido à corja de governantes que puseram o País na miséria.
Auscultei a família, as minhas colegas dos Companhia Limitada e resolvi meter os papéis.
Há poucos meses resolveram retirar-me as funções que tinha porque, segundo as chefias, eu era a pessoa com o “profile” para assegurar a função de tentar vender serviços fora de portas, tipo comercialJ … Bem eu não gostei que me tivessem tirado das funções que até então tinha desempenhado imaculadamente e olhando para as potencialidades que tinha para virar a mesa a nosso (TCB) favor, não me revi nas novas funções. E claro fiz saber a minha posição a quem de direito. Disse ainda que adoro um bom desafio mas quando sinto que, no mínimo, tenho hipóteses de ganhar. Neste caso duvidava de tal e acima de tudo, não queria que as pessoas que achavam que eu era o “tipo” certo, ficassem desiludidas com a minha prestação.
Sabia também que vinha outra vez a ser protagonista, porque na função Pública não há líderes, há tachos e feudos pelo que, ou se é um alinhado ou então fica-se pelo caminho.
Senão, ainda vejamos! Não tinha hipóteses de progredir na carreira, não ia receber mais por isso, estou magoado pela maneira como conduziram o meu assunto e deixei de acreditar. Em suma estou desmotivado. Como não sou como a raposa tipo “estão verdes não prestam”, prefiro sair com a minha dignidade em alta, do que com o rabo entre as pernas. De maneira que estou e muito bem, na situação de Pré-reforma, à espera a todo o momento, de receber a carta que me passe à reserva da F. P.
Estou cansado de ser protagonista de filmes de que não gosto, de romances de cordel e cenas de faca e alguidar.
Afinal, depois de alguns episódios que descrevi e de certas pessoas acharem que me conhecem, eu pergunto?
Quem é que quer ser protagonista? Eu não por favor!
Tá dito? Tá feito!
( Carlos Camarão & Companhia Limitada )
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